Um Conto Medieval

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Um Conto Medieval

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Há muito, muito tempo atrás a vida era dura. Dura num sentido desconhecido hoje em dia. Quando não chovia os rostos ficavam ensombrados. Os sulcos das rugas tornavam-se mais profundos. Quando continuava a não chover, os homens bebiam mais e batiam nas mulheres com mais raiva. E se continuava a não chover faziam-se procissões, rezas, promessas. Faziam-se também coisas que ninguém contava a ninguém mas que toda a gente sabia que se faziam. Tudo na esperança de que chovesse.

E quando a chuva teimava em não vir, começava-se a morrer. Morriam os cães, morria o gado. Finalmente morriam as pessoas. Quando não chovia durante muito tempo, morriam muitas pessoas.

Quando a chuva voltava havia sempre algo que tinha mudado. Alguém tinha, no desespero, vendido as terras ao desbarato e agora tinha chuva mas não tinha terra. Famílias inteiras tinham desaparecido e os vizinhos lutavam pelo pouco que tinham deixado para trás. Era sempre pouco, porque só quem tinha pouco é que morria.

Era assim e sempre tinha sido assim. Ninguém estranhava. Não estranhavam os vencedores nem estranhavam os vencidos. Podiam não gostar, podiam alimentar ódios e vinganças mas estranhar, não estranhavam.

Um dos vencedores era o Manel. Os anos já lhe pesavam. Já não tinha o vigor de antigamente mas continuava a ser um homem imponente. Uma imponência adquirida a lidar com o gado, os homens e as enxadas, a terra e o clima.

Era uma imponência rude e áspera, diferente da dos reis e dos cardeais.

Tinha terras a perder de vista, adquiridas uma a uma. Algumas nas secas, outras não. Nunca roubara nada, o que não quer dizer que tudo tivesse sido adquirido de forma pacífica. Mas de forma pacífica nunca se tem terras a perder de vista.

Os seus inimigos lembram sempre a história do Francisco. A do Francisco e muitas outras. Contam as histórias nas tabernas, à noite, em voz baixa, trocando olhares de ódio e insultos ao Manel.

O Francisco era um bêbado. Essa parte ninguém contesta. Também não contestam que tinha umas terras ali para os lados da Ribeira das quais poderia tirar muito mais do que tirava. Colhia umas batatas, umas couves, tinha umas cabras magritas. Tudo muito abaixo do que uma terra daquelas merecia.

Um dia bebeu demais. Demais para o que os outros bebem. No fundo, bebeu o mesmo de sempre.

No dia seguinte, o filho viu-lhe os bolsos cheios de moedas de ouro. Após alguma gritaria, murros e pontapés, percebeu que o pai tinha vendido as terras ao Manel.

O filho do Francisco tinha uma fibra diferente da do pai. Foi ter com o Manel e pediu-lhe satisfações.

– Ao que vens, rapaz?

– Sabe muito bem, Senhor. Quero o que é meu de volta. Você roubou as terras do meu pai.

– As terras são minhas. Como és um miúdo, vou fazer de conta que não ouvi o insulto. O teu pai tem os bolsos cheios de moedas de ouro e o valor é o justo. Se queres saber, até acho que ninguém lhe dava tanto por aquelas terras.

– O problema não está no preço. O meu pai é um bêbado e não sabe o que faz. Você aproveitou-se.

– O teu pai é um homem e se não se porta como tal o problema é dele.

– E eu vou viver de quê? O meu pai vai gastar o dinheiro todo. Sabe isso muito bem.

– Contrariamente ao que dizem por aí, até tenho bom coração. Comprei ontem umas terras ali para os lados da Ribeira. Estão quase ao abandono. Podes começar a trabalhar amanhã ao nascer do sol. Pago-te o mesmo que pago a toda a gente.

O filho do Francisco sacou da navalha para o matar mas os outros seguraram-no. Cuspiu no chão, virou as costas e foi-se embora. Foi engrossar o rol dos que odiavam o Manel. Eram muitos mas não eram todos. O Manel dava emprego a muita gente e para os que estavam com ele, podia não ser simpático, mas era justo e honesto.

Comecei esta história sem contar algo essencial.

Nessa época remota, nos recantos mais profundos da província, onde as estradas lamacentas, o mato e as silvas tornavam os acessos quase impossíveis, havia magia.

Havia muita magia. Havia feiticeiros e bruxas.

Havia sítios onde os homens só iam em grupo e bem armados.

À noite não se saía de casa, com medo de…

De…

…bem, com medo.

Havia magia e havia os corvos.

Os corvos não eram corvos verdadeiros. Só apareciam em certas épocas. Não em épocas fixas, não em estações do ano. Segundo os velhos, os corvos apareciam quando o ódio aumentava. E se calhar, era verdade.

Apareciam quase sempre nas secas. Começavam a esvoaçar à volta dos ricos, à volta dos homens fortes e trabalhadores, à volta das mulheres bonitas e grasnavam insultos:

– “Ordinária, és uma ordinária”. Depois começavam a cantarolar ao som duma música conhecida. “ORDI ORDI NÁRIA. O O O O RRRRRRRDINÁRIAAAAAA”.

Isto enquanto ensaiavam voos picados sobre a cabeça da Luísa, a rapariga mais bonita da aldeia.

O Manel era das pessoas mais incomodadas pelos corvos. Quando apareciam, insultavam-no sempre:

– “Velho, Porco, Nojento. Velho, Porco, Nojento”. Depois fugiam, antes que ele os conseguisse apanhar.

Algumas pessoas baixavam a cabeça e sorriam, discretamente, enquanto os corvos atormentavam o Manel.

Nas épocas dos corvos, quando o filho do Francisco os via numa árvore, sentava-se debaixo dela, à sombra. Invariavelmente, os corvos começavam a grasnar:

– Velho, Porco, Nojento. Velho, Porco, Nojento.

O filho do Francisco sabia que não estavam a falar dele e era capaz de ficar horas a ouvi-los.

——————————————–

Por fim, voltou a seca. A Primavera tinha começado e não chovia. Já não chovia há muito tempo. Tinham-se feito as procissões, as promessas, os sacrifícios.

E não chovia.

As plantas começaram a secar, o gado começou a morrer. Os corvos apareceram e começaram a atormentar o Manel. À medida que a fome apertava, as pessoas começaram a reunir-se em grupos e a dizer coisas que nunca tinham dito antes. Algumas começaram a sussurrar as palavras dos corvos:

– “Velho, Porco, Nojento. Velho, Porco, Nojento”.

O sussurro subiu de tom e começou a ouvir-se na aldeia. Finalmente o Manel percebeu o que se passava. Grupos de pessoas convergiam lentamente para a praça central entoando, como num cântico religioso:

– “Velho, Porco, Nojento. Velho, Porco, Nojento”.

Por cima da multidão, os corvos grasnavam, numa histeria descontrolada:

– “VELHO, PORCO, NOJENTO. VELHO, PORCO, NOJENTO”.

O Manel começou a correr, na direcção da praça central, com a multidão e os corvos atrás.

Era dia de feira e a praça estava cheia de bancas que vendiam os produtos da terra. Uma boa parte das bancas era do Manel.

Esbaforido, chegou ao centro da praça. Parou por uns momentos. Olhou para trás, para a multidão que o seguia. Hesitou…

De repente, virou-se para as bancas e gritou para os seus empregados:

– PONHAM TUDO A METADE DO PREÇO!

Olharam para ele, confusos, sem perceber.

– NÃO OUVIRAM O QUE EU DISSE? PONHAM TUDO A METADE DO PREÇO.

Quando a multidão chegou à praça estava num frenesim descontrolado. Gritavam em altos berros:

– “VELHO, PORCO, NOJENTO. VELHO, PORCO, NOJENTO”.

Enquanto os corvos, num êxtase nunca antes visto, rodopiavam no ar, como folhas no vento de Outono.

Pouco a pouco, algumas pessoas foram reparando nas bancas com comida. Primeiro paravam a olhar, incrédulas. Depois, separavam-se da multidão e começavam a comprar. Primeiro uma, depois duas…

Ao fim de algum tempo, toda aquela multidão comprava tudo o que podia com o dinheiro que tinha trazido consigo. Os grupos desfizeram-se, a gritaria acalmou.

No ar, os corvos ainda tentaram incentivar as pessoas, com o seu grasnar irritante, mas já ninguém lhes ligava importância. As piruetas pararam, o grasnar desceu de tom, as asas batiam cada vez mais lentamente, até que os corvos desapareceram. Ninguêm viu para onde foram.

——————————————–

– D. Gertrudes, D. Gertrudes. Venha depressa! Passa-se alguma coisa com o menino Manel.

A velha criada corria esbaforida pelo corredor. Uma velha e altiva senhora surgiu dum quarto:

– Já te disse para não chamares menino ao Senhor. O que se passa?

– É o Senhor Manel, D. Gertrudes. O seu filho está ali sentado, num canto da sala. Está estranho. Nunca o vi assim.

– Está sentado no chão?

– Sim, minha senhora.

D. Gertrudes foi até à sala. Olhou para o filho com o olhar duro de quem tinha assistido a muitas mortes, muitas guerras, muitas secas.

– Queriam a minha pele, mãe. Perseguiram-me até à Praça. Mandei pôr as bancas todas a metade do preço e parei-os. Foram os filhos da mãe dos corvos quem organizou tudo. Não sei se da próxima me safo.

D. Gertrudes deu um longo suspiro.

– A vida é assim, é uma guerra. Temos de lutar. Tu às vezes exageras. Devias ter mais cuidado.

– Aquilo é uma escumalha, mãe.

– A maioria até é. Mas há uns que não são. O filho do Francisco, por exemplo, só teve azar na vida. Se não fosse isso, era homem para fazer uma lavoura prosperar. A seca está aí e eles têm medo de morrer.

– E faço o quê, mãe? Eu não sei fazer chover.

Pensa nos que prestam. O filho do Francisco e mais alguns. Tu sabes quem são. Ajuda-os. Directamente não vão aceitar. Arranja quem o faça. Se não tiverem fome, passa-lhes a maldade.

– Mas isso é meia dúzia. E os outros?

– Os outros não prestam, Manel. A seca e o álcool hão-de levá-los.

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Tudo isto passou-se à muito tempo, Há muito, muito tempo, quando a vida era dura. Dura num sentido desconhecido hoje em dia. Quando os rostos ficavam ensombrados pela falta de chuva e os sulcos das rugas se tornavam mais profundos. Quando a seca fazia os homens odiar e os corvos aparecer.

Se calhar nada disto aconteceu. Se calhar são só histórias que os velhos contam, à lareira, nas noites de Inverno.

Seja como for, são coisas antigas. Hoje em dia é tudo diferente.

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Se gostou deste conto, sugiro que leia:

O Príncipe e a Singularidade – Um Conto Circular

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Gosta de política? Então leia:

O Capítulo Perdido de “O Príncipe”, de Maquiavel

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P. Barrento 2012

http://www.facebook.com/pedro.barrento

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3 responses to “Um Conto Medieval

    • Os corvos mágicos continuam a existir e estão iguaizinhos. Quando as dificuldades da vida apertam, começam a espicaçar ódios e a incitar multidões…

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