Parte 01

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O Príncipe e a Singularidade – Um Conto Circular

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De que trata este livro? Bem, é difícil de descrever. Senão vejamos:

  • É prosa, mas lê-se como se fosse poesia;
  • Tem elementos de fantasia, incluindo um príncipe e uma donzela em apuros, mas não se enquadra na fantasia como género literário;
  • Parece uma fábula, mas não é para crianças;
  • Não contém sexo, violência ou linguagem ordinária, mas garanto que é tudo menos desenxabido;
  • É circular, mas não redondo;
  • E, por último, tem várias camadas, mas não é seguramente uma cebola.

O que é então? Bem, sugiro que leiam e logo ficam a saber…

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Prólogo

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Nas paredes exteriores dos templos e mosteiros Budistas situados na região Indo-Tibetana, encontra-se frequentemente uma pintura peculiar: uma roda dividida em círculos, cada um contendo várias imagens. É designada por bhavacakra, vulgarmente conhecida como “Roda da Vida”, e constitui uma representação simbólica da samsara, a existência cíclica.

No centro da “Roda da Vida” estão pintados três animais, um porco, uma cobra e um pássaro, que simbolizam os três venenos da ignorância, rejeição e desejo.

O porco representa a ignorância, a cobra a rejeição ou ódio, e o pássaro o apego (também traduzido por desejo). Destes três venenos deriva todo o ciclo da existência.

A cobra e o pássaro surgem frequentemente a sair da boca do porco, indicando que a rejeição e o desejo provêm da ignorância. Por sua vez, estão também agarrados à cauda deste, simbolizando um ciclo vicioso em que eles próprios alimentam a ignorância.

O presente livro é uma modesta tentativa de criar uma fábula actual baseada nestes conceitos.

A história deve também muito a uma frase proferida por um amigo, Manuel Pinto Pereira, que há cerca de duas décadas me disse: “a realidade é”. Não faço ideia se ele chegou a essa conclusão por si próprio ou se a leu algures, mas a frase ficou a ecoar na minha cabeça desde então.

(A descrição da bhavacakra acima utilizada foi adaptada de um texto retirado da Wikipedia.)

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Capítulo I

No Princípio, Era o Verbo

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No início, não havia nada.
Não existia Espaço, nem Tempo.
Apenas os pensamentos dos Deuses, incompreensíveis para nós, e as suas emoções.
No coração, só tinham um sentimento:
Tédio
Um tédio profundo.
Alguém teve uma ideia:
– Estou farto! Vamos jogar.
Os pensamentos cruzavam-se, confusos:
(Jogar a quê?/O que é que ele está a dizer?/Jogar? Jogar? Não há nada para jogar!)
– Silêncio! Calem-se todos!
As regras são simples.
Cada um aposta a sua divindade.
Cada vez que perder, cria algo e gasta um pouco de si.
Quando perder tudo, extingue-se para sempre.
No fim, sobra só um Deus
E aquilo que os outros criaram.

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Baralhos de cartas surgiram, aparentemente do nada, e grupos reuniram-se em redor de mesas que, momentos antes, não existiam. No meio de uma algazarra de empurrões e cotoveladas, a multidão foi-se lentamente organizando até que, por fim, todos os Deuses estavam sentados e as cartas foram distribuídas pela primeira vez.

Começaram logo a jogar, entusiasmados. À medida que as apostas se acumulavam e a parada subia, as emoções iam ficando ao rubro. Os Deuses jogavam a sua própria existência, procurando fugir de um tédio de dimensão cósmica, algo para além do nosso alcance ou compreensão.

Um dos jogadores olhou para as cartas. Ébrio de excitação, gritou:

– Aposto tudo! Toda a minha Divindade!

Uma vaga de admiração percorreu os presentes.

– Se perderes, transformas-te em quê? – perguntou alguém.

– Num Universo inteiro – gritou o Deus, em êxtase. – Tal é o meu poder!

– Mas se perderes, desapareces…

– Eu não vou perder! – respondeu o Deus, com voz trovejante e um murro violento na mesa.

Depois olhou para o adversário.

– Aceitas a aposta?

– Sim – surgiu a resposta, proferida com voz calma.

Ambos mostraram as cartas, em simultâneo. Um dos Deuses desapareceu. De súbito, os restantes viram-se a jogar num universo novo, rodeados de galáxias, espaço e estrelas.

E envoltos pelo Tempo, como é chamado pelos humanos, que aos Deuses, todavia, não parecia afectar.

E assim continuaram o jogo, à deriva das correntes desse oceano temporal.

Uns, cautelosos, apostavam criações pequenas: uma floresta aqui, uma montanha ali, talvez uma civilização inteira, quando as cartas pareciam sorrir. Outros arriscavam toda a sua Divindade de uma só vez.

O universo foi sendo preenchido: povos, animais, florestas, plantas e culturas… Tudo criado a partir de parcelas de Divindade perdidas ao jogo.

O número de Deuses foi diminuindo, gradualmente, aos poucos… Por fim, passados milénios infindos, restavam apenas cinco.

Um deles estava quase a perder pela última vez.

Sobravam-lhe seis míseras parcelas de Divindade. Uma ninharia, que mal lhe permitia existir.

Olhou para a mão. As cartas não eram más. Decidiu arriscar.

– Aposto tudo – disse, tão fraco que a voz mal se ouvia.

Os outros riram-se.

– Tudo? Queres dizer, seis? – perguntou um Deus alto e magro, em tom jocoso

– E que crias tu com seis parcelas de Divindade, se perderes? Uma breve aragem… uma mão cheia de sementes… uma poça de água, num planeta qualquer? – inquiriu outro, com o nariz aquilino ainda mais retorcido pela expressão de troça.

A pergunta era de retórica, com a intenção única de humilhar. Foi acompanhada por gargalhadas trovejantes de dois outros jogadores. O terceiro olhou para o lado, fazendo de conta que não estava a seguir a conversa.

– Uma folha de árvore, na Terra – foi a resposta fleumática, pronunciada com uma calma improvável, especialmente vinda de alguém que se arriscava a desaparecer para sempre.

– Uma folha de árvore? Isso é nada… – argumentou o Deus alto e magro.

– É tudo o que posso criar com a Divindade que me resta. Regras são regras. Não podem recusar a minha aposta.

O Deus que se mantivera em silêncio até então pôs um ar preocupado. O apostador piscou-lhe o olho, rápido e discreto. O quinto jogador, um personagem baixo e rotundo, pareceu notar a troca de olhares.

Todos viraram as respectivas cartas.

– Perdeste seis! – gritou alguém. Mas, quando levantou os olhos e os fixou no outro lado da mesa, deparou apenas com uma cadeira vazia.

Algures, na Terra, uma folha solitária, levada pelo vento, caiu no chão de uma floresta.

O jogo continuou, num frenesim descontrolado, agora com os quatro parceiros restantes.

O Deus baixo e rotundo, no entanto, estava desconcentrado. Vasculhava um monte de papéis, velhos e desorganizados, procurando algo. Distraía-se. Tinham de chamá-lo à atenção na sua vez de jogar.

De repente saltou da cadeira, com uma folha na mão e um grito de acusação e triunfo:

– Eu sabia! Eu sabia! Uma folha são três, não são seis!

Um dos jogadores continuou a olhar para o lugar que ficara vazio na mesa. Os outros dois levantaram as cabeças, confusos.

– O que é que estás para aí a dizer? Vá lá, joga! É a tua vez.

– Não estão a perceber? Uma folha de árvore custa três parcelas de Divindade, não custa seis. Finalmente encontrei. Está escrito aqui, nas regras.

E novamente repetiu, enquanto, com uma das mãos, agitava furiosamente uma listagem em papel:

– É três que custa! Não é seis!

O Deus magro e o de nariz aquilino fitaram-no com expressões vazias. O outro jogador fixou-se na cadeira que ficara vaga na mesa, evitando o olhar dos restantes.

Com voz mais calma, o Deus rechonchudo voltou a explicar:

– Ele apostou seis para criar uma folha de árvore. Certo?

– Sim – responderam duas vozes, em uníssono.

– E desapareceu. Certo?

– Sim – responderam de novo as mesmas duas vozes.

– Mas para criar uma folha de árvore, só são precisas três parcelas de Divindade. Está aqui, na tabela.

Dois dos Deuses começaram finalmente a perceber o que estava em causa. O Deus restante já sabia.

– Só custa três? Mas isso quer dizer que…

– Exacto! Estava a ver que não chegavam lá. Ele está vivo! Criou uma folha e guardou três míseras parcelas de Divindade para poder continuar a existir.

O tom de voz dos outros dois começou finalmente a subir, à medida que se apercebiam da dimensão da fraude.

– Está escondido dentro de uma folha, na Terra. Devia ter vergonha.

– Miserável aldrabão!

Um dedo esticou-se, acusador.

– Aquele ali sabia de tudo. Eu vi-os a trocar olhares – disse o Deus baixo e rotundo.

– São amantes. Toda a gente sabe – gritou o de nariz aquilino.

Os três Deuses irados começaram a discutir entre si sobre o que fazer. Quando voltaram a olhar para a cadeira do quarto jogador, esta estava vazia.

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Capítulo II

O Príncipe

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Um príncipe descansava numa floresta, sentado no chão, à sombra de uma árvore. O sol brilhava num céu imaculadamente azul, o calor opressivo cortado apenas pelo vento forte.

Viajava há muito tempo, tendo partido em busca de aventura e conhecimento. Deixara atrás de si o conforto do lar paterno para viver entre o povo, conhecendo diferentes modos de vida e culturas e partilhando a dureza e as carências da vida das pessoas humildes. Apesar das provações, nunca se arrependera da decisão tomada.

Subitamente, um barulho estranho chamou-lhe a atenção. Não era bem um barulho. Era algo que nunca tinha ouvido antes, como se o ar estivesse a borbulhar.

Pôs-se em pé e encostou-se ao tronco da árvore, escondendo-se por detrás dele. Depois, inclinou-se ligeiramente para espreitar por entre a folhagem, tentando ver o que se passava.

No meio de uma clareira estava uma figura, de pé, segurando numa folha.

– Sei que estás aí. Agora já podes sair – ouviu o personagem dizer.

O Príncipe hesitou, assustado. Antes que conseguisse responder ou fazer algo, uma segunda figura apareceu, ao lado da primeira.

– Como me encontraste?

– Olhei para todas as folhas da Terra. Só uma flutuava contra o vento…

O outro corou, embaraçado.

– Fui uma folha breve. Não tive tempo para treinar – depois acrescentou, com um suspiro de alívio. – Estás aqui. Deves ter ganho o jogo. Estamos juntos para sempre?

O sobrolho carregado e o ar grave faziam antever a resposta.

– Não. Fomos descobertos.

– Então temos de nos esconder. Rápido, meu amor…

– Esconder não nos vai servir de nada. Foi-me fácil encontrar-te. Também o será para eles. Estão loucos de raiva e querem vingança.

– Eles são três. Nós somos dois e eu estou fraco. Salva-te. De qualquer forma, estou perdido.

– Não digas disparates. Sabes que nunca te abandonaria.

Por um longo momento, os Deuses fixaram-se mutuamente, numa estranha mistura de tristeza, cumplicidade e ternura. A floresta em redor cobriu-se de um manto de silêncio. Nem os insectos se ouviam.

O primeiro Deus estendeu o braço, descrevendo um arco amplo, num gesto de desdém. Novamente recomposto, continuou:

– De qualquer forma, nunca seria uma alternativa viável. Eles perceberam que eu sabia. Para o melhor e para o pior, estamos juntos neste assunto.

– Fazemos o quê, então? Se fugimos, encontram-nos. Se lutamos, perdemos.

– Começámos o jogo para fugir ao tédio que nos atormentava. Tínhamos consciência de que podíamos morrer e isso não nos assustava. Por quê ter medo agora? Tenho uma ideia; vamos desaparecer, mas ficaremos juntos para sempre. Tu e eu vamos passar para outro mundo, o das ideias.

O outro Deus pareceu confuso com a sugestão.

– Já reparaste nos seres que povoam este planeta? – perguntou a primeira figura.

– Não tive tempo. Fui uma folha… e depois chegaste tu.

– São muitos. Não me recordo de quem os criou. Creio que foi numa jogada de valetes e damas contra um trio de noves. Mas posso estar enganado.

Ficou um momento parado, a pensar.

– Bem, de qualquer forma, não interessa. O que interessa é que existem, e em grande quantidade. Proponho o seguinte: vamos perder-nos nos pensamentos deles.

– Não estou a perceber.

– Usamos toda a nossa Divindade. Tu transformas-te numa ideia e eu noutra. Desaparecemos ambos, mas deixamos para trás algo que durará para sempre. E continuaremos juntos, numa espécie de imortalidade menor. Vá lá, escolhe tu. Qual queres ser? O Desejo ou a Rejeição?

– Posso escolher? Generoso como sempre. Escolho o Desejo, claro.

– Fico com o Ódio, então.

– O Ódio? Não era a Rejeição?

– É o mesmo, não sejas picuinhas.

Escondido atrás da árvore, o Príncipe observava, horrorizado. Não compreendia todos os detalhes do que estava a presenciar, mas sentia o imenso poder em acção, o egoísmo e a maldade.

Subitamente, ouviu-se de novo o estranho som de borbulhar. As duas figuras olharam uma para a outra. Cruzaram expressões de serena determinação e desapareceram, como se nunca tivessem ali estado.

O Príncipe ficou pasmado, a olhar. Por mais que esforçasse a vista e vasculhasse a clareira em busca dos Deuses, não conseguia encontrá-los em lugar algum. Era como se se tivessem desvanecido no ar.

– Que estranho! – pensou. – Para onde terão ido?

Começou então a sentir-se diferente, de uma forma que não sabia explicar. Era algo que nunca tinha sentido antes, uma agitação interior, como se de uma perturbação da alma se tratasse.

A sua atenção foi atraída por uma árvore próxima. Estivera ali o tempo todo mas, até então, não tinha reparado nela.

– Aquele tipo de árvore é muito raro – pensou. – O meu pai trocou manadas de gado por madeira daquela, para construir a nossa casa.

Reparou em mais árvores da mesma espécie.

– Inacreditável! Este sítio é uma mina de ouro. Pode-se fazer aqui uma fortuna. Só preciso de arranjar forma de transportar toda esta madeira para uma cidade grande.

Depois parou, surpreendido com os seus próprios pensamentos. Como era possível que estivesse a pensar assim? Nunca se interessara por riquezas ou conforto. Tivera tudo isso em casa de seus pais e jamais se sentira atraído.

Lembrou-se então do pai e surgiu-lhe uma figura imponente e ameaçadora, sempre a gritar-lhe ordens e sem nunca ouvir o que ele tinha para dizer.

– Odeio aquele homem! Espero nunca mais voltar a vê-lo – murmurou.

O Príncipe sentiu uma enorme repulsa pelo que tinha acabado de dizer. Ele não odiava o pai. De forma alguma. Por acaso, até tinha bastantes saudades dele. O que é que lhe estava a acontecer?

Lembrou-se então das escolhas dos Deuses e tudo começou a fazer sentido.

Desejo e Rejeição. Agora compreendia, finalmente, o que aqueles dois estavam a planear: uma maldição sobre a Humanidade. Uma maldição que transformava todas as árvores em madeira e levava filhos a rejeitar os próprios pais.

Mas ele vira tudo e vivera o momento. A partir de agora, os homens podiam estar escravizados pelas novas ideias dos Deuses sem sequer se aperceberem, mas o Príncipe sabia o que tinha acontecido e compreendia os poderes em acção. Lentamente, pela força da sua própria vontade, afastou de si aquelas sensações novas. Voltou a ser ele próprio, como sempre tinha sido.

Com todo o cuidado, espreitou de novo por entre a folhagem da árvore.

Na clareira havia agora três novas figuras, que discutiam animadamente entre si. Ficou a ouvir o que diziam, com atenção.

Era uma história complicada de jogo, batota e traição, de Deuses ociosos e de mundos criados por capricho.

O Príncipe começou a entrar em pânico. Se os outros dois tinham criado tanto mal, do que seriam capazes estes três? O medo deu-lhe forças. Num impulso momentâneo, deixou o seu esconderijo.

As três figuras olharam para ele, surpreendidas.

Curvou-se respeitosamente, de olhos postos no chão.

– Deuses magníficos, perdoai-me a ousadia…

– Realmente – disse um – coragem não te falta.

– Perdoem-me a intromissão, mas eu estava atrás daquela árvore e não pude evitar ouvir o que diziam. Sei o que procuram: dois Deuses, que fizeram batota no vosso jogo.

Explicou o que vira e ouvira.

Um dos três ficou colérico.

– Escaparam outra vez – gritou, em fúria.

– Acalma-te! – disse outro. – Desapareceram para sempre. Podem existir nas mentes primitivas destes seres mas, como Deuses, não existem mais. Para eles o jogo acabou.

– Tens razão – concordou o primeiro. – Eles perderam. Vamos esquecê-los.

O Príncipe, num acto de coragem irreflectida, movido pelo medo do que poderia acontecer a seguir, teve uma ideia súbita e decidiu agir.

– Grandes Deuses, percebi que jogam às cartas desde tempos infindos para afastar o tédio que Vos atormenta.

– É verdade – disse um, com ar resignado.

– Para quê aguardar uma nova eternidade até que reste apenas um de Vós? Se aceitarem a sugestão de um simples mortal, tenho uma proposta para Vos apresentar.

Os Deuses estavam curiosos.

O Príncipe tirou do bolso três pequenos dedais cinzentos e uma bola da mesma cor.

– Esta é uma brincadeira que eu costumava fazer com o meu sobrinho. Com o passar dos anos, se puderem desculpar a minha falta de modéstia, considero que me tornei num perito.

Dispôs os três dedais no chão e colocou a bola debaixo de um deles. Depois começou a mudar os dedais de posição, com movimentos rápidos e confusos das suas mãos. De vez em quando parava e desafiava a sua audiência a descobrir debaixo de que dedal estava a bola.

Apesar de falharem sempre, os Deuses riam-se, divertidos.

– Engraçado, sim senhor. Mas de que nos serve essa tua brincadeira? – perguntou finalmente um deles.

– Divindades majestosas, o vosso propósito não é jogar até que sobre apenas um? Escusam de arrastar o assunto por mais uma eternidade. Eu executo o meu truque com os dedais e cada um de Vós faz uma aposta, tentando adivinhar debaixo de qual está a bola. De seguida, levantam-se os dedais, todos ao mesmo tempo. Dois dos Deuses desaparecem e o que acertou na localização da bola reinará sozinho para sempre. Não é o que querem? Se fizerem à minha maneira é mais rápido.

Os Deuses olharam uns para os outros, surpreendidos com a sugestão e sem saberem bem o que pensar.

– Não é que ele, se calhar, até tem razão?

– Quem diria, um simples mortal.

– Eu estou farto de jogar. Vamos resolver isto de vez – disse o terceiro Deus.

O Príncipe olhou-os de frente.

– Em troca, peço apenas uma pequena recompensa.

Vacilou um pouco e curvou ligeiramente a cabeça. O seu ar era agora mais humilde mas não menos determinado.

– Pelos meus serviços, se não for pedir muito…

– E que queres tu?

– Que cada um dos três, se perder, juntamente com as outras criações em que gastar a Sua Divindade, me conceda um poder.

– E que poderes queres?

– O poder de decidir quando morro, o poder de caminhar sobre as águas e o poder de curar os doentes – disse o Príncipe, sem hesitar.

E acrescentou de imediato:

– Claro que destes três poderes só poderão ser-me concedidos dois, pelos Deuses que perderem o jogo. O terceiro poder nunca será meu.

– Realmente, ousadia não te falta – disse um dos Deuses, hesitando entre o desdém e a admiração.

– Ora, ora, vá lá. Vamos dar-lhe o que quer – disse outro. – O rapaz tem iniciativa, merece ser recompensado. E tem gosto pelo jogo. Não sabe com que poderes fica nem qual o poder que perde.

Os outros acabaram por concordar.

– Estamos de acordo – disse um. – Eu se perder, concedo-te a imortalidade.

– Isso seria uma maldição, não um dom. Pretendo morrer quando a vida deixar de me interessar – corrigiu o Príncipe.

– Como queiras – concordou o Deus, agora um pouco irritado. – Dou-te o poder de escolheres quando morres.

– E eu concedo-te o dom de caminhar sobre as águas – declarou o segundo Deus.

– Bem, só me resta dar-te o poder de curar os doentes – disse o terceiro, algo ofendido por não poder escolher.

O Príncipe alisou o chão à sua frente. Agarrou nos dedais e na bola. Concentrou-se e, fazendo apelo a toda a habilidade adquirida ao longo de anos de prática, fê-los dançar sob as suas mãos com uma rapidez fulminante, capaz de confundir o mais atento espectador.

– Realmente, o rapaz tem talento – comentou um dos Deuses. – Vamos apostar.

– Um momento – interrompeu o Príncipe. – Primeiro há algo que devemos clarificar. Eu apercebi-me, ao escutar a Vossa conversa, de que há quem já tenha feito batota. Para que não haja dúvidas sobre os termos destas apostas, cada Deus deverá dizer: “Se o dedal que eu escolhi não tiver a bola debaixo dele, honrarei a minha palavra, gastando toda a minha Divindade em criações terrenas e na concessão do poder que me foi pedido pela pessoa que manipula os dedais”. Desta forma, não restará espaço para dúvidas nem para batotas.

– Estamos de acordo – disseram os Deuses, em uníssono.

Cada um escolheu um dedal e fez a jura.

O Príncipe olhou os Deuses de frente, enquanto movia os dedais pela última vez, até que as suas mãos, finalmente, pararam. Esperou um momento, enquanto criava suspense e apreciou aquele paradoxo fugaz, em que um simples mortal decide o destino do Divino.

Com um gesto rápido e floreado, levantou os três dedais. Nenhum deles ocultava a bola.

Os três Deuses desapareceram de imediato.

O Príncipe esticou lentamente os dedos, um a um, e olhou para a bola, que tinha escondido na palma da mão.

Ensaiou um sorriso matreiro:

– Estes três já não fazem mal a ninguém.

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Se gostou da história também pode entreter-se a ler este conto:

Dois Homens, Um Cão e Três Mentiras

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Agradecimentos e Colaborações:

Edição e Consultadoria Literária:

Lynn Curtis

Capa:

Alexander Katourgi

Gostaria de agradecer, pela sua colaboração:

A Fátima Ferreira e Sandro Marques, pela revisão gramatical e de conteúdo do rascunho inicial;

A Teresa Frederico, pelo seu contributo para a revisão final;

A Lynn Curtis, por ter transformado em inglês correcto as partes do texto que foram escritas directamente nesse idioma;

A Fernanda Gil e Paula Soto Maior, pelos contributos em versões iniciais da capa;

E a todos os que, nos sites “authonomy.com” e “YouWriteOn.com”, deixaram sugestões e críticas a este livro.

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© P. Barrento 2012

http://www.facebook.com/pedro.barrento

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5 responses to “Parte 01

  1. Já tive o privilégio de ler antecipadamente este conto. Aconselho a todos que sigam o desenvolvimento do mesmo. Além de bem escrito, é surpreendente.

  2. Inclino-me magestosamente sobre a forma de escrita, criatividade e loucura divina, ainda faltam 5 dias, vê lá se despachas o tempo! Assim leio mais depressa

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