Dois Homens, Um Cão e Três Mentiras

Eu tenho um problema grave – não bebo café.

Aliás, tenho três problemas graves, já que também não fumo nem bebo álcool. As outras pessoas ganham energia, de manhã, com uma boa chávena de café e controlam os seus humores ao longo do dia com as três substâncias. Eu acordo, ensonado e trôpego e tenho de me irritar com qualquer coisa para ter energia. Dia em que não me irrito com nada, é um dia estragado.

Hoje, decidi irritar-me com as pessoas que mentem a elas próprias.

E eu, quando me irrito, escrevo.

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Dois Homens, Um Cão e Três Mentiras

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Era uma vez, numa pequena aldeia à beira Tejo, um velho que gostava de pescar. Gostava de pescar e gostava de estufas. Vivia pacatamente, numa casa pequena, daquelas antigas em que tudo parece em miniatura – as portas, as janelas, a própria casa.

No quintal, tinha uma estufa e plantava umas coisitas. Umas dentro da estufa, outras fora. Quando não estava a tratar da horta, estava a pescar no Tejo.

Se o tempo não permitia fazer nada disto, ia para o café.

Depois do jantar, também ia para o café.

Era uma vida simples, dum velho reformado que nunca tinha conhecido luxos.

Mas não se iludam com este Outono pacato. Noutros tempos, tinha tido uma vida agitada. Muito agitada.

Antes da Revolução, foi militante da resistência. Viveu os tempos da clandestinidade, das perseguições, da PIDE. Quando achou que estava quase a ser apanhado, fugiu. Passou a fronteira a salto. Esteve em França. Viveu 5 anos na Rússia e aprendeu a falar a língua.

Depois da Revolução, voltou. Viveu os tempos agitados, sempre na linha da frente. Os golpes, os contra golpes, os piquetes, as ocupações de terras.

Esteve em todas e viveu tudo intensamente. Era um homem de ideais puros. Lutou por um mundo diferente. Sempre por convicção, nunca por interesse.

Infelizmente, essas guerras foram perdidas e estavam distantes. Estavam distantes as guerras mas não os ideais. Esses, eram os mesmos de sempre.

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Mentira nº 1

A aldeia era pequena e os amigos muitos. Eram muitos, mas não eram todos iguais. Ele e o Joaquim, costumavam pescar juntos e passar horas no café. Só a horta é que não fazia o estilo do amigo.

O Joaquim era bastante mais novo e trabalhava na construção. Como isto anda mal e o trabalho não abunda, de vez em quando arranjava qualquer coisa no estrangeiro e desaparecia aos três meses de cada vez. Depois voltava, com algum no bolso e aguentava-se por aqui a fazer uns biscates. Até desaparecer de novo.

Um dia estavam os dois no café, à volta dumas cervejas, umas cartas, uns amigos e muita conversa.

– Eu cá precisava era que me saisse o euromilhões. Disse o Joaquim. Uma pázada de massa para nunca mais me chatear com nada. Mas quando sai é aos 4 e 5 euros de cada vez. Até mete raiva. Preferia que não saísse nada. Ou nada ou 50 milhões, Agora, 4 euros, só serve para enervar…

– 50 milhões? Isso até devia ser proibido. É uma vergonha. Agora é tudo aos milhões. Não pensam noutra coisa.

– Olha, olha, é preciso lata. Você também joga, que eu já vi.

– Eu jogo, mas só quero que me saiam 10.000 euros. Preciso de reparar o telhado … e aquele caco velho que está à frente da minha casa tem 20 anos e está quase a entregar a alma ao criador.

Os outros riram-se.

– Ó Manel… Disse o Joaquim. Isso é mesmo idéia de velho maluco. Olhe, logo para começar, com 10.000 euros não repara o telhado e compra um carro.

– Não? Então é preciso para aí quanto?

– Claro que não. Para aí uns 30.000, para as duas coisas.

O Manel torceu-se ligeiramente na cadeira. Os números grandes incomodavam-no. Sempre o tinham incomodado.

– 30.000?

– Sim, 30.000.

– Pronto, tá bem, então preciso de 30.000. Se querem mesmo saber, acho mal que seja preciso tanto, mas hoje em dia é tudo assim. Então jogo no euromilhões para ver se me saiem 30.000.

– E lá continua você a dar-lhe. Se joga, é para sair o máximo. Não faz sentido nenhum dizer que joga só para sair 30.000.

– Eu cá é que sei para que é que jogo. E também não acredito que eles dêem esses milhões todos a alguém. Isso deve ser tudo mentira. Dão os prémios pequenos e o resto é aldrabice. É só para engodo.

Os outros riam-se, com gosto. Alguém disse:

– Isso, se calhar, até é verdade.

Houve um momento de silêncio.

– Mas se é para sair pouco, porque é que não joga no totobola? O totobola dá menos.

O Manel levantou os olhos, irritado. Varreu os colegas de jogo com o olhar, o queixo erguido e uma expressão de nojo na cara.

– Coisas de futebol, se fazem favor, não falem ao pé de mim. Isso então é que é mesmo uma vergonha. Dão uns pontapés na bola e ganham dinheiro que dava para tirar terras inteiras da miséria. Deviam era ir todos presos. Este povo tem o que merece.

E novamente, insistiu:

– Eu, jogo no euromilhões. É para sair 30.000 euros. Fez uma pausa.

– E não tenho que dar satisfações a ninguém.

Alguém achou que a conversa estava a ficar pesada e decidiu aligeirar:

– Então, Joaquim? E a brasileira dos olhos verdes? Quando é que casam?

– Casar?! Cruzes, canhoto. Moita, carrasco e o diabo a sete…

– “O diabo a sete” não quer dizer isso. Protestou um dos jogadores.

– Se calhar não. Disse o Joaquim. Mas soa bem…

Toda a gente se riu.

– Aquilo é gado bravo. É para um gajo se divertir e passar a outro.

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Um Capítulo Sem mentiras

Estava um daqueles dias de céu azul e mar espelhado.

Mar… que não era mar, era Tejo.

Os dois homens estavam sentados no bote, a pescar.

De vez em quando, metiam uma bucha à boca, bebiam uns goles de tinto e trocavam umas palavras.

Pescar à linha, é isto e pouco mais.

– O meu pai ontem estava a dizer e com razão… Disse o Joaquim. Isto hoje em dia é tudo proibido.

– O seu pai anda distraído. Proibido era dantes. Agora, há liberdade. Lutei e sofri muito para isso.

– Liberdade para si, para o meu pai não há.

– Há liberdade para todos. Que disparate é esse?

– Pois o meu pai diz que não. Falou de si e tudo. Disse assim:

“Agora, só há liberdade para o Manel e para os que se interessam por política. Para os outros, acabou”.

– O seu pai só diz disparates.

– Não diz não, você é que não está a perceber. As coisas que ele fazia dantes, agora, são todas proibidas. E as que dantes eram proibidas e agora não são, a ele não lhe interessam para nada.

O Manel estava a ficar irritado com a conversa.

– E que coisas são essas?

– Olhe, por exemplo, o meu pai dantes punha armadilhas para os pássaros. Para comer. Agora é proibido. Dá multa, dá chatice, dá GNR – é proibido. Dantes não era e se era, ninguém ligava.

– E isso é que interessa ao seu pai?

– Isso e outras coisas. Dantes, quando se andava nas obras, carregava-se o lixo todo da obra, arranjava-se um canto qualquer aí no campo e jogava-se fora. Agora, é proibido. Agora é preciso pagar contentores da Câmara e mais sei lá o quê. E para quê? Para eles depois o jogarem fora no sítio que eles querem. Mas nós tivemos de pagar primeiro.

Houve um momento de silêncio.

– E há mais coisas. O meu pai era pobre, não tinha sítio para viver. Juntou uns tostões para uns tijolos, massa, umas telhas e fez aquela casita onde ainda vive. Na altura era clandestina. Nem a terra era dele. Só muito depois é que fizeram as ruas, a água e essas coisas. Depois acabaram por legalizar. Legalizaram a dele e as outras todas. Estava tudo na mesma situação. Se fosse agora… era proibido.

– O seu pai acha que o que é bom é fazer ilegalidades. Coisas que prejudicam os outros, sem pensar no bem comum.

– Está a ver? Está a dar-me razão. São ilegalidades – é proibido. Dantes podia-se fazer.

O Manel estava a perder a paciência.

– Agora, há liberdade. Já não anda a PIDE atrás da gente. Pode-se votar. Pode-se dizer o que se quiser.

– Isso o meu pai nunca votou nem quer, diz ele. E a PIDE, a ele, nunca o incomodou.

– E sabe que mais é que o meu pai diz?

– Acho que não quero saber.

– Mas eu conto na mesma. Ele diz assim:

“O Manel, estragou a vida para quê? Porque não gostava dos que estavam no poder. E agora, gosta? Não gosta na mesma. Não serviu para nada”

O Manel baixou a cabeça e resmungou:

– Isso é porque as pessoas são parvas e não sabem votar…

Mas interiormente sabia que o pai do Joaquim, pelo menos naquele ponto, tinha alguma razão.

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Mentiras nº 2 e nº 3

Estava uma noite quente e parada, daquelas em que, na província, as pessoas trazem as cadeiras para a rua e ficam ali sentadas, na conversa.

O Manel tinha ido passear o cão. O Joaquim foi junto.

Caminhavam na direcção do ancoradouro, onde o bote estava atracado.

O cão ia cheirando todos os recantos, todas as esquinas, os pneus dos carros, os tufos de erva. Investigava um mundo que para os dois homens era inexistente. Passeavam os três juntos, mas em dois universos paralelos.

Subitamente, um estalo metálico e um ladrar ensurdecedor juntou os dois mundos, por breves instantes.

Os homens e o cão saltaram para o lado, assustados.

Um bicho enorme, arraçado de Serra da Estrela, tinha corrido na direcção deles, com a boca  a espumar, rosnando com ar ameaçador e batendo os dentes, como que a abocanhar uma presa.

Correu até que a corrente o parou e ficou ali, com as patas da frente no ar, a ladrar  descontroladamente e a dar dentadas sem sentido.

– Calma, Troski. Ele está preso, não te pode fazer mal.

Depois virou-se para o Joaquim.

– Passa a vida a acontecer isto e assusto-me sempre. Não há maneira de me habituar.

– Pudera! Com o tamanho do bicho e os dentes que tem… Espero que aquela corrente não se parta nunca. Disse o Joaquim.

– E porque é que chama Trotski ao cão?

– Porque ele não conhece dono e não faz nada do que lhe digo, riu-se o Manel.

O Joaquim não percebeu a explicação, mas riu-se também.

Chegaram ao ancoradouro e sentaram-se num banco, a olhar a água escura.

– Ter um barco grande é que deve ter graça, disse o Manel. Uma coisa assim do tamanho duma traineira, que dê para fazer umas patuscadas e dormir lá dentro.

O Joaquim olhou para o bote e ficou um bocado parado, a pensar.

– Tem razão. Deve ter graça, sim senhor. Pescar o peixe e pô-lo logo a grelhar. Ali, no meio do rio… Mas eu, o que gostava mesmo, era de ter uma ganda casa.

– Lá está você. A sua sorte é ser pobre. Se não fosse pobre era fascista. Esses casarões deviam ser proibidos. Agora puseram-lhes imposto em cima. Não é que sirva de muito, mas do mal o menos. Sempre é melhor terem imposto do que não terem. Mas aos ricos, esses impostos não doem na carteira. É só questão de roubarem mais um pouco.

– Ah, eu cá sou contra os impostos nas casas…

O Manel virou a cabeça, incrédulo.

– Você e o seu pai nunca deixarão de me espantar. Também é contra os ricos pagarem imposto? Homessa! Deve ser uma explicação digna de ouvir.

– Não sou contra os ricos pagarem imposto. Disse o Joaquim, algo picado.

Parou um pouco, a pensar.

– Pelo menos, até me sair o euromilhões.

Soltou uma gargalhada forte, que ecoou no silêncio da noite.

– Sou é contra os impostos sobre as casas.

– Continuo a querer saber porquê.

– Porque dantes, os pobres e os ricos viviam misturados. Em todas as ruas, havia gente muito pobre, havia uns remediados e havia sempre um  engenheiro, um doutor, alguém com terras. Havia sempre uns ricos. Todos sabiam quem eles eram e viviam ali no meio. Às vezes, havia pobres e ricos no mesmo prédio.

O Manel continuava genuinamente interessado em perceber aquela lógica. Discordava sempre das opiniões do Joaquim, mas tinha uma enorme dificuldade em argumentar. Eram mundos diferentes.

– Agora, as casas boas pagam grandes impostos e os ricos e os pobres vivem longe uns dos outros. Quem tem dinheiro para pagar, vive nas zonas dos ricos, quem não tem, vive com o povo. Os ricos agora, só vêem os pobres na televisão.

Parou um pouco, para pensar.

– À conta disso, há menos compreensão.

Era mais uma daquelas opiniões do Joaquim que ia contra tudo aquilo em que o Manel acreditava, mas na altura não lhe ocorreu nada para dizer.

Ficaram os dois calados.

– Pois eu, gostava de ir à pesca num barco grande. E gosto de agricultura. Mas não queria terra para mim. Gostava era de poder organizar uma cooperativa, para que quem não tem terra pudesse trabalhar. Todos em conjunto. Mostrar que há outra maneira de fazer as coisas. Sabe que eu estive nas ocupações, no Alentejo?

– A reforma agrária? Você andou metido nisso?

– Andei.

– Mas porque é que isso estourou tudo? Ocuparam as terras e voltaram a ficar sem elas. Nunca percebi essa história. Os donos conseguiram correr com vocês? Eu, se fosse dono, corria de certeza.

Soltou uma gargalhada e deu uma palmada nas costas do Manel.

– Sem ofensa, amigo.

O Manel não ligou ao comentário e olhou para a água, com um ar triste e pensativo.

– Os latifundiários fizeram o que puderam para nos tirar a terra. Infelizmente, o problema não foi só esse. Para isso, estávamos nós preparados.

Fixou o olhar no Tejo, como se reflectisse um passado distante e incómodo.

– O problema pior, foi a falta de solidariedade entre os camaradas. Havia quem estivesse ali pelos ideais, para construir um mundo novo. Mas eram poucos. A maioria estava por outros motivos. Uns por vingança, outros porque julgavam que iam ficar donos de terra. Havia até quem achasse que aquilo era uma festa.

Sentia-se na voz que aquela não era uma conversa fácil.

– Fomos derrotados por nós mesmos. Os latifundiários só tiveram de esperar que a gente saísse para voltarem a ficar com tudo. É triste, mas é verdade.

Ficou a olhar o rio, contemplativo.

– Mas eu gostava de poder provar que aquilo funciona.

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Três Verdades

O Joaquim tinha estado vários meses no estrangeiro.

Entre idas e vindas e novas idas, há muito tempo que não se viam.

Hoje, tinham passado o dia na pesca.

Caminhavam lentamente a partir do cais. Silhuetas num entardecer ameno, em que nada mais se mexia.

– Disseram-me que você tem um quadrado de terra aqui perto e que a sua filha fez lá umas estufas. Isso é verdade?

– É. Disse o Manel, enquanto abanava a cabeça, assertivamente.

– Eu nem sabia que você tinha uma terra.

– É pequena. Coisa de família. E é muito fraquita, não dá para nada.

– Mas disseram-me que aquilo está cheio de movimento, com muita gente a trabalhar e tudo.

– A rapariga meteu uns projectos… Essas coisas que há agora. Aprovaram e ela fez as estufas. Para fazer estufas não interessa muito se a terra é boa ou má. Eles põem lá tudo o que as plantas precisam. Quase que se fazia sem terra. O Manel riu-se, com gosto.

– Isto agora é tudo diferente, acrescentou.

– Mas contaram-me que está lá muita gente a trabalhar. Insistiu o Joaquim.

– Alguma. Mas isso interessa-lhe?

– Até pode interessar. Quando não aparece nada na construção, em vez de ter de ir lá para fora, podia fazer uns trabalhos para a sua filha.

– Aquilo não é para si. Ganha-se muito poucochinho. Ela quase só lá tem gente do Leste.

O Joaquim estacou, a olhar para o Manel, incrédulo.

– Olhe que desta é que eu não estava à espera. Então você, que passou a vida toda a reclamar dos outros, agora tem uns desgraçados a trabalhar para si e paga-lhes mal?

Olhava para o amigo e abanava a cabeça, lentamente, com a boca aberta, de espanto.

O Manel acusou o toque.

– Eu não tenho nada que ver com aquilo. A terra é minha mas foi herdada, é como se fosse da minha filha. Eu disse-lhe que podia fazer lá o que quisesse.

E acrescentou.

– A minha filha não explora ninguém, que eu dei-lhe uma educação como deve de ser. Ela se paga pouco é porque aquilo não dá mais. As margens estão todas nos intermediários, nas grandes superfícies, nos capitalistas.

Parou um pouco, como que a pensar.

– E ainda por cima, como fez com apoios, tem de cumprir umas regras, para provar que a coisa é rentável. Senão, tiram-lhe os apoios.

Continuou a andar. Conscientemente ou não, mudou de conversa.

– Então e a brasileira dos olhos verdes? Disseram-me que está grávida. Você, de certeza que já sabe. Tinha razão. Aquilo é gado bravo. Vá-se lá saber quem é o pai…

Parou a meio da frase, ao olhar para a cara do Joaquim.

– Respeito, Senhor Manel, que eu a si também nunca lhe faltei ao respeito. A rapariga tem nome, chama-se Marlene. E o pai da criança sabe-se muito bem quem é. Andamos a tratar das coisas para casar.

Olhou para o Manel, que estava especado, boquiaberto:

– E pelo andar da carruagem, não me parece que vá ser convidado nem para o casamento nem para o baptizado.

O outro tentava balbuciar uma desculpa, mas não lhe saía nada.

Subitamente, um animal enorme desatou a correr na direcção deles, a ladrar e a dar dentadas no ar.

Os dois homens estacaram, assustados.

O cão correu até ao fim da corrente, deu um esticão e com um estalo metálico, soltou-se.

Ficou a ladrar e a rosnar, a um metro de distância.

Havia uma raiva ancestral naqueles olhos pequenos mas brilhantes. Uma vontade de matar escorria da boca, junto com a baba.

De repente, percebeu que estava solto. Olhou em redor e parou de ladrar.

O Joaquim tentou enxotá-lo, com um pontapé.

Houve uma hesitação, um momento em que tudo parecia ter parado.

Depois, inesperadamente, o cão encolheu-se, ganiu e fugiu a correr na direcção de onde tinha vindo, com grande espalhafato.

Ficaram os dois estupefactos, a olhar um para o outro.

– Esta atão… Disse o Joaquim. Se me contassem, não acreditava.

– Você viu a cara do bicho quando percebeu que estava solto?

– Então não vi? Respondeu o Manel. Ficou cheio de medo.

– Passou anos a fazer de mau, a fazer que mordia as pessoas…

– E afinal, estava a mentir…

O Joaquim pôs um ar pensativo.

– …estava a mentir a ele próprio…

– A ele próprio? O Manel demorou um pouco a perceber tudo o que aquela observação continha. Depois, pôs um ar aprovador.

– Essa é boa. Tem razão, sim senhor…

Os homens riam-se a bandeiras despregadas, enquanto caminhavam pela rua fora.

– Isto os bichos têm cada coisa. Não dá para acreditar.

– Pois é. Não dá mesmo para acreditar.

– Passou a vida a mentir a ele próprio. Voltou a dizer o Joaquim e abanava a cabeça, incrédulo.

– Só mesmo os bichos, para fazerem uma coisa destas. Disse o Manel.

E foram rindo, rua fora, enquanto o sol se punha.

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Se gostou deste conto, sugiro que leia:

O Príncipe e a Singularidade – Um Conto Circular

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P. Barrento 2012

http://www.facebook.com/pedro.barrento

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2 responses to “Dois Homens, Um Cão e Três Mentiras

  1. Bravo Bravo Pedro Barrento escreves bem e tens um estilo próprio que jamais vi em ninguém.Ou estou louca ou descobri um g+enio da literatura.bingo

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