Nossa Senhora da Igualdade

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Este texto é dedicado a Christine Lagarde, Directora do Fundo Monetário Internacional, que levantou uma enorme polémica, ao dizer que estava mais preocupada com os pobres do Níger, do que com os problemas dos Gregos.

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Nossa Senhora da Igualdade

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Não sei se já repararam, mas nas entrevistas de rua, nos Estados Unidos, quando as pessoas reclamam da crise e da pobreza, há um pormenor interessante. Sempre que mencionam a injustiça social e começam a falar nos bancos e nos milionários, tendem a fazer um pequeno aparte, do tipo: “…claro que se eles são ricos é porque trabalharam para isso e merecem…” e depois segue-se uma lamentação de que a diferença social não devia ser tão grande, ou que a riqueza de uns não devia implicar a miséria de outros ou algo similar.

A primeira vez que reparei nisto, achei curioso que uma pessoa tão pobre ou tão crítica do sistema se lembrasse de fazer uma observação dessas. Depois notei, com estranheza, que o fenómeno se repetia com frequência. Finalmente, no meio dum documentário do Michael Moore (não me lembro qual), o próprio fez um aparte desse tipo. Continuar a ler

O Capítulo Perdido de “O Príncipe”, de Maquiavel

O lema deste blog é: “Um misto de sátira e de ideias políticas, em que nunca se tem a certeza do que é sátira e do que são as convicções”.

O que eu acho estranho é que eu próprio não consigo decidir se os meus escritos são só para fazer pouco do Sistema ou se acredito em alguma coisa daquilo que escrevo.

E isso, não me parece normal.

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O Capítulo Perdido de “O Príncipe”, de Maquiavel

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Passo a vida a ler na net e a ouvir nas notícias que os cidadãos deste país clamam por mais transparência.

É algo que soa instintivo. Se houver mais transparência, há menos negociatas e os malandros dos políticos já não conseguem meter dinheiro ao bolso.

Eu, como de costume, discordo. Acho que a questão da transparência está a ser vista duma forma infantil. Continuar a ler

A Crise Da Zona Euro Explicada Às Avózinhas

Uma das coisas que mais me atrai na antiga União Soviética é a ideia de que a arte deve ser educativa e inspiradora. Aqueles murais com ceifeiras em poses heróicas, louvando a nobreza do trabalho agrícola e incentivando os cidadãos a contribuir para a prosperidade da nação é algo que simplesmente já não há. A escrita, a pintura e a música de hoje em dia, quando têm significado político, é sempre de crítica, de “deita abaixo”.

Os media, por sua vez, ou dizem mal de tudo ou dão explicações complicadíssimas, que não ajudam ninguém a perceber os problemas e a formular opiniões.

Um dos assuntos que anda aí na baila e sobre o qual não se encontra um único texto fácil de perceber é a situação da crise da zona euro. Basicamente, os países mais pobres, ao aderirem ao euro, ficaram com uma credibilidade artificialmente acrescida, que lhes permitiu endividarem-se muito acima do que faria sentido. A Alemanha achou fantástico o acesso à exploração desses novos mercados e colaborou na concessão de crédito excessivo. Agora que a bolha estourou, vacila entre uma integração total, que ajuda a resolver o problema mas que a liga para sempre a países dos quais desconfia e uma recusa de integração, que põe em risco o poderio entretanto conquistado.

Continua confuso? Então leia a versão que eu escrevi para divulgação popular.

É muito fácil. No final do texto, se estiver do lado do noivo, concorda com a Alemanha. Se estiver do lado da noiva, concorda com Portugal, Grécia, etc.

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A Crise Da Zona Euro Explicada Às Avózinhas

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– Mas não casam porquê? Pergunta a mãe do rapaz, estupefacta.

– Os convidados já começaram a chegar. Vai ser um escândalo. Acrescenta a mãe da rapariga.

– Ela só quer o meu dinheiro. Eu devia estar cego, mas agora vejo bem. Bem demais!

– És um estúpido! Só pensas nisso. Para ti é só dinheiro, dinheiro. Tudo é dinheiro.

– Claro, tu ao dinheiro não ligas nenhuma. És completamente desinteressada. Mas sabes gastar. Isso sabes.

A mãe da rapariga estava confusa.

– Mas a minha filha nunca foi gastadora. Pode perder a cabeça com uma mala ou uns sapatos, uma vez por outra, mas…

– Nunca foi gastadora com o dinheiro dela! Com o meu é à fartazana. Continuar a ler

Sobre Os Políticos

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Sobre Os Políticos

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Há uns tempos atrás estava a ver uma notícia, um documentário ou algo similar, no meio do qual aparecia o refeitório duma fábrica e era mencionado que os preços das refeições eram mais baratos para os funcionários que tinham os salários mais baixos.

Toda a gente pôs um ar aprovador e até tenho a vaga sensação de que houve um comentário do tipo: “É justo, quem ganha menos deve pagar menos”.

A coisa passou, mas como é habitual em mim, fiquei a matutar no assunto e a pensar que não fazia sentido nenhum.

Antes de me acusarem de insensibilidade social e de outras coisas piores, dêem-me o benefício da dúvida e leiam o texto até ao fim. Continuar a ler

Amorim, Amorim aos Molhos…

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Amorim, Amorim aos Molhos…

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Sempre gostei de ler a lista anual da Forbes que hierarquiza as maiores fortunas do mundo. Leio-a com o mesmo espírito com que algumas mulheres leem aquelas revistas que mostram as casas dos ricos, os carros dos ricos e as roupas que levaram ao casamento da “não sei quantas”.

Não sei porquê, mas aquilo dá-me gozo.

“Bill Gates – 61 mil milhões de dólares – Estados Unidos”

“Ah, coitado, caiu para segundo lugar este ano”. Mas depois, lembro-me. Caíu porque começou a dar o dinheiro para a Fundação, para ajudar os pobrezinhos em África. É boa pessoa, sim senhor. O malandro do Carlos Slim (Mexicano) passou para primeiro lugar porque não dá nada a ninguém – “Bbbuuuuuu”.

Vou-me entretendo neste exercício

Olha, olha, o gajo da Zara já vai em quinto lugar. Trinta e sete mil milhões a vender t-shirts, quem diria… Os espanhóis são terríveis. É preciso ter muito cuidado com os espanhóis. Aquilo não é boa gente. Continuar a ler

Sobre a Esquerda e a Direita

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Sobre a Esquerda e a Direita

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Toda a gente sabe, de forma mais ou menos instintiva, o que é a esquerda e a direita, em termos políticos. No entanto, quando se pede às pessoas para explicarem o que é, obtém-se as respostas mais díspares, por vezes mais estranhas e praticamente sempre muito afectadas pelas convicções políticas do interlocutor em causa. Face a essa diversidade decidi que também tenho direito à minha definição pessoal. Não é rigorosa, não é imparcial, é puramente negativa e é seguramente preconceituosa. Para além disso, é geográfica e temporalmente limitada (é portugalocêntrica e aplica-se principalmente aos últimos 80 anos) mas tem uma grande vantagem – É MINHA…!

De esquerda é quem não percebe que o tamanho do bolo não é fixo, de direita é quem não percebe que por detrás dos mapas e dos rácios há pessoas.

Vamos explicar, que a coisa é densa. Continuar a ler