Nossa Senhora da Igualdade

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Este texto é dedicado a Christine Lagarde, Directora do Fundo Monetário Internacional, que levantou uma enorme polémica, ao dizer que estava mais preocupada com os pobres do Níger, do que com os problemas dos Gregos.

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Nossa Senhora da Igualdade

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Não sei se já repararam, mas nas entrevistas de rua, nos Estados Unidos, quando as pessoas reclamam da crise e da pobreza, há um pormenor interessante. Sempre que mencionam a injustiça social e começam a falar nos bancos e nos milionários, tendem a fazer um pequeno aparte, do tipo: “…claro que se eles são ricos é porque trabalharam para isso e merecem…” e depois segue-se uma lamentação de que a diferença social não devia ser tão grande, ou que a riqueza de uns não devia implicar a miséria de outros ou algo similar.

A primeira vez que reparei nisto, achei curioso que uma pessoa tão pobre ou tão crítica do sistema se lembrasse de fazer uma observação dessas. Depois notei, com estranheza, que o fenómeno se repetia com frequência. Finalmente, no meio dum documentário do Michael Moore (não me lembro qual), o próprio fez um aparte desse tipo.

“Alto, que passa-se aqui qualquer coisa”. Pensei eu.

O Michael Moore é o terror do capitalismo americano. Faz documentários a massacrar o sistema, sem dó nem piedade. Fiquei estupefacto, ao constatar que até ele, no meio de um dos seus actos de guerra propagandística, se lembra de ressalvar que os ricos trabalharam e merecem o seu dinheiro.

Alertado para o fenómeno, reparei que em Portugal, passa-se o mesmo, mas com outra frase.

No meio das maiores invectivas contra o custo do Estado Social e a excessiva dimensão do Sector Público, os interlocutores juntam muitas vezes um aparte, em aparente contra corrente, deixando claro que o objectivo final de tudo o que estão a dizer é diminuir as desigualdades ou, pelo menos, não as agravar.

As intervenções que se ouvem na televisão, sejam “de rua”, sejam de políticos, estão cheias de ressalvas em favor duma sociedade mais justa e mais igualitária, por vezes em enquadramentos muito pouco coerentes.

Tenho pensado sobre estes apartes lusos e americanos e concluí que são essencialmente idênticos, por muito que possam parecer opostos.

Na minha opinião, são rituais tribais, reafirmando a pertença a um grupo.

O que estes apartes querem dizer é: “Eu estou a criticar, mas sou um dos vossos, não sou inimigo. Não se assustem, porque estamos todos do mesmo lado”.

Na América, confirma-se a pertença ao grupo, declarando-se que se aceita a legitimidade da riqueza. Em Portugal, é a aceitação da sociedade igualitária como objectivo final da governação que prova que se faz parte da tribo.

Se a pessoa que está a criticar o sistema não cumprir o ritual, é considerado inimigo e nada do que disser tem relevância.

Imaginem um americano, a queixar-se que perdeu a casa, levada pelo banco e também perdeu o emprego, pelo que não consegue alimentar os filhos. Até na América, os telespectadores não podem deixar de sentir alguma compaixão pela situação da família.

Se, a seguir, acrescentar que a maior parte dos milionários são parasitas e não merecem o dinheiro que têm, a empatia dos americanos desmorona-se.

Em Portugal, passa-se o mesmo.

Se alguém estiver a propôr cortes nas despesas de Saúde, ressalvando que é para salvar o Estado Social e tentar impedir o agravamento das desigualdades, as pessoas podem não gostar, mas aturam.

Se disser que a prioridade é equilibrar as finanças do Estado, independentemente do efeito nas desigualdades (que é a verdade, óbvia, mas nunca assumida), tudo o que  esteve a dizer, é rejeitado.

O orador recusou-se a cumprir o ritual. É um inimigo. Assunto arrumado.

É um fenómeno igual ao que acontecia na Idade Média, em que qualquer crítica tinha de ser seguida pela frase:

“… sempre com o maior respeito por Deus, Nosso Senhor e pela Santa Madre Igreja”.

A permanente e obsessiva afirmação da igualdade como objectivo indiscutível é idêntica a esta frase, só que dita no séc. XXI.

Pode parecer estranho que as pessoas aceitem melhor um discurso, acompanhado duma mentira ritual, do que dito com honestidade, mas faz mais sentido do que possa parecer à primeira vista.

Um estudo de 2010 concluiu que a lisonja funciona, mesmo quando o destinatário sabe que lhe estão a mentir.

Insincere Flattery Actually Works: A Dual Attitudes Perspective

É uma ideia fascinante, com uma lógica tortuosa.

Sem rigor científico e como mera opinião, suponho que o que se passa é o seguinte. Se alguém se dá ao trabalho de me mentir é porque eu tenho algum valor para essa pessoa. Interessa-lhe a minha opinião, as opções que eu possa tomar, ou simplesmente, o meu dinheiro.

Algo lhe interessa.

Se nem se dá ao trabalho de me mentir é porque se está nas tintas para mim.

É um pouco como aquela vítima de violência doméstica, que se queixa ao psiquiatra:

– A relação está cada vez pior, Sr. Doutor. Ele, agora, já nem me bate…”

Enquanto que a lógica não pode deixar de considerar a mentira como falta de respeito, o emocional, paradoxalmente, encara a mentira como prova de algum respeito.

À conta destas distorções psiquiátricas, continuamos a insistir na igualdade. Por um lado, é uma mentira óbvia, como faço tenção de provar neste texto. Por outro lado, acho fascinante que este dogma se mantenha, durante 38 anos, sem alterações, dado que produziu um resultado exactamente oposto ao pretendido. Portugal tem, neste momento, o maior fosso entre ricos e pobres de que há memória nos últimos 100 anos. Quando a igualdade não era assumida como objectivo, a diferença entre pobres e ricos era menor.

A humanidade realmente, tem uma capacidade infinita de resistir aos factos, em nome de teorias e princípios morais abstratos.

Pois eu, mesmo sob risco de ser expulso da minha tribo, decidi desmontar o discurso da igualdade.

Sempre que oiço essa conversa, sinto-me invadido por uma enorme religiosidade e anseio por uma aparição de Nossa Senhora, como em 1917.

Imagino a Santa, visível no céu a partir de qualquer sítio, em Portugal, rodeada por uma enorme aura de luz, com as suas palavras a ecoar, serenamente:

– Meus filhos, sei das vossas provações e venho em vosso auxílio. Em que posso ajudar-vos?

O povo, de joelhos, em êxtase, nas ruas, nas varandas e nos terraços, clama, a uma só voz:

– Igualdade, Santa Mãe, tudo o que pedimos é igualdade.

E a Santa, comovida com a pureza das intenções do povo, deixa rolar uma lágrima pela face, ergue os braços aos céus e faz O Milagre.

Durante breves instantes, o Mundo vê-se mergulhado numa luz resplandecente e uma sensação de paz e amor percorre as almas, desde o eremita piedoso ao mais empedernido dos assassinos.

Quando a luz finalmente esmorece, o povo olha em redor, enlevado na magia daquele momento único.

Passado um momento, ouve-se uma  voz, hesitante:

– Nossa Senhora, abri a porta da despensa e está quase vazia. Onde estão os pacotes de arroz e massa?

A Santa, ternamente, responde:

– Na Somália, meu filho. Uma mãe que foge da seca ia abandonar o bébé no meio do mato para tentar salvar os outros dois filhos, um de 3 e outro de 5 anos. Os teus pacotes de arroz e massa vão-lhe permitir salvar os três filhos.

E acrescenta, com uma infinita ternura no olhar:

– Foi um gesto muito bonito da tua parte, pedires igualdade, apesar de estares desempregado e a receber o Subsídio Social de Desemprego, de apenas 180 euros. Deus não se esquecerá.

De outra varanda, ouve-se uma voz, estupefacta:

– O meu armário está quase vazio. Onde estão as camisolas?

– Na Bolívia. Responde a Santa. Onde os camponeses, que mal têm para comer, têm de sobreviver todas as noites a temperaturas de 10 graus negativos.

Exclama outro:

– A Playstation do meu rapaz. Desapareceu!

– Está no Paraguai , meu filho. Um grupo de crianças que nunca teve mais do que uma bola de trapos agradece o teu gesto magnífico.

– Mas a minha casa vai ser leiloada pelo banco, o carro tem 20 anos e está parado porque não tenho dinheiro para a oficina e levas-me a Playstation do miúdo?

O tom de voz da Santa começa a alterar-se, ligeiramente:

– Aquelas crianças vivem em barracas e ninguém na vizinhança alguma vez teve carro…

– Mas porque é que não foste buscar aos ricos, em vez de me tirares a mim?

– Também fui, mas não chegou. E, como vocês pediram igualdade, eu tive de tirar a todos os que tinham mais do que a média, por muito pouco que fosse.

De todas as ruas, varandas e terraços, se ouvem protestos. A todos, a Santa vai tentando responder, com voz cada vez mais impaciente. Finalmente, explode:

– Chega!

Faz-se silêncio total.

– Chiça, penico. Pragueja a Santa, com um tom de desespero na voz.

O país congela e olha para o céu, de boca aberta, apanhado de surpresa pelo impropério divino.

A Santa arregaça as mangas. De baixo do véu, tira um livro, entitulado “World Factbook: 2011”. Põe os óculos de ver ao perto, localiza as páginas que lhe interessam e com ar de poucos amigos, invectiva:

– O mundo tem cerca de 195 países. Dependendo dos critérios utilizados e do ano em apreço, Portugal situa-se sempre entre o 23º e o 33º lugares, na lista de países com melhor nível de vida.

Levanta os olhos do livro, olha por cima das lentes para o povo, embasbacado e continua:

– Por muitos problemas que tenham, os portugueses, no pior dos cenários, fazem parte dos 17% que melhor vivem neste planeta. Pediram igualdade e eu dei igualdade ao mundo inteiro. Ficaram pior do que estavam? Claro que ficaram. Vocês estavam melhor do que a média. Estão a reclamar de quê?

Alguém respondeu:

– Nós queriamos igualdade, mas era em Portugal. Quero lá saber do que se passa na Somália ou na Bolívia.

A Santa, completamente estragada, passa de zangada a sarcástica:

– Peço imensa desculpa. Foi erro meu, não percebi. Vocês queriam igualdade, mas era só com as pessoas acima da vossa condição. Deviam ter explicado melhor. Eu sou muito ingénua e julguei que era uma opção moral, julguei que eram contra as desigualdades.

Ouve-se uma voz:

– Nossa Senhora, podemos ter-nos enganado. O que nós queremos é justiça social. Pode ser para o mundo todo, não só para Portugal. Mas é justiça, não é igualdade.

– Justiça social? Diz a Santa, pensativamente.

– Suponho que isso queira dizer tirar só a alguns para dar só a alguns?

– Exacto. Respondem várias pessoas, em uníssono.

– Tirar só aos ricos para dar só aos pobres. Acrescenta outro.

– Acho uma excelente ideia. Mas têm de ser vocês a fazer a lista das pessoas a quem se tira e das pessoas a quem se dá.

– Mas isso é o que nós nunca conseguimos fazer.

– Eu faço milagres, não faço política. Diz a Santa.

– De qualquer forma, não se preocupem. Neste momento, estão todos iguais, mas acreditem em mim, não vai durar muito

E acrescenta.

– Palavra de Nossa Senhora.

E desaparece, sob um enorme foco de luz.

Para trás, deixa um país na miséria.

Para trás, deixa um país e um planeta completamente igualitários.

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Está farto de política? Quer desanuviar? Leia

O Príncipe e a Singularidade – Um Conto Circular

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Se não está farto de política, sugiro

Sobre a Democracia, a Inclusão e a Economia

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P. Barrento 2012

http://www.facebook.com/pedro.barrento

7 responses to “Nossa Senhora da Igualdade

  1. Gostaria imenso que pudesses vir morar nos States por uns tempos para compreenderes um pouco melhor a mentalidade americana. Tens de te lembrar que a maioria dos ancestrais (e mesmo dos actuais imigrantes) vieram para este continente cheios de esperanca em CONSTRUIR um pais mais justo, Nao era igualdade o que procuravam, Procuravam poder ter a religiao que quisessem, procuravam melhor condicoes de vida, mais espaco (ler: Terra barata mesmo que pra isso tivessem que matar uns Indios… Assim como os luso-vidigodos mataram muitos mouros… Afinal a luta e’ sempre a mesma!) e sabiam que, se na Europa isso lhes era impossivel, aqui teriam de trabalhar muito pra o conseguir. Passaram por muitas guerras, conseguiram dar um bom pontape’ no cuzito dos sempre gananciosos Ingleses e, finalmente, conseguiram se unir num grande pais (cheio de gente vinda de varios pontos do Planeta) depois de escreverem a constituicao deste pais que inicia com “We the People of the United States, in Order to form a more perfect Union, establish Justice, insure domestic Tranquility, provide for the common defence, promote the general Welfare, and secure the Blessings of Liberty to ourselves and our Posterity, do ordain and establish this Constitution for the United States of America.”
    Nao fala em igualdade e cedo se estabeleceu a forma economica capitalista. Justica para estes imigrantes (a maioria pobre) era que, se um sujeito trabalhasse arduamente, conseguiria ascender a um estatuto mais prospero. Essa continua a ser a mentalidade do americano do Norte.
    Na Europa ficaram os que quiseram, os que insistiram e ainda insistem que justica e’ igualdade e sobretudo ter necessidades basicas garantidas pelo governo “Atao nao e’ pra isso c’a gente paga impostos?”… O Americano diz-te logo que nao. Que ele paga imposto para manter as estradas, pontes e infrasestruturas basicas. Caridade e’ assunto das Igrejas, das Instituicoes sem fins lucrativos e da comunidade. E funciona. Sao aos milhares.
    Falei-te uma vez que nao pagava para ter remedios, ir ao medico ou mesmo fazer uma operacao. Inscrevi-me numa dessas organizacoes e aceitaram-me. Vou ao medico quando preciso, faco um check-up por ano e se nao pdesse nao pagaria. Pudendo, faco uma doacao sempre que la vou que ronda entre os $25 e os $50 (uma consulta aqui ronda pelos $35 a $75, dependendo se e’ a primeira ou nao e/ou se e’ especializada ou nao).
    Mas o que eu queria realmente que entendesses e’ que este pais nao e’ so’ o que les nos jornais, ou ouves nas noticias ou mesmo o que indagas atraves da net. Nenhum pais e’ possivel de entender atraves da media; so’ atraves da vivencia e de um pouco de background historico. Sem estes dois condimentos o prato sai completamente furado.
    Adorei a historia da Nossa Senhora. Acho que tens um humor diabolico e uma logica meio incisiva meio ilogica. Acho-te ‘as vezes um pouco demagogo tambem. Desculpa la’ a franqueza e a falta de capacidade de lisonja.
    Na Historia da humanidade, assim como na historia da maior parte dos casais, a culpa nao e’ de nenhum e e’ sempre dos dois. Ou melhor, que tal procurar solucoes em vez de culpados?

      • Muito interessante Pedro… e tu que despresas “religiao”, muito me surpreende a alegoria a Santa.
        Talvez eu seja romantica, mas adoro a velha Europa e o desejo de igualdade…
        Quanto a trabalhar arduamente, olho para o meu pai que trabalha desde os 9 anos de idade – so fez a 3a classe – e toda a vida foi pobre, apesar de trabalhar de sol a sol. A implicacao no comentario ao teu artigo, de que basta trabalhar para ser rico, so pode vir da boca de quem e rico.

      • Não creio que no comentário da minha prima, que vive nos EUA, haja algum sítio em que ela diga que basta trabalhar para ser rico. Ela só está falar da forma como os americanos encaram o assunto.

  2. Seja na Europa ou nos EUA, não é com o próprio árduo trabalho que se fica rico. A única solução é pôr muitos outros a trabalhar arduamente para nós. quer seja pela ilusão que serão ricos um dia ou por uma questão de sobrevivência.
    Nas empresas cotadas em bolsa, os administradores ganham cerca de 44 X mais que os funcionários de base. Visto que são trabalhos diferentes certamente que não poderia haver igualdade de salário. Seria justo que o administrador ganhasse 2X? É pouco..? 4X, humm…, mesmo assim, ele teve que estudar e teve muita dor de cabeça, é pouco. 5X, talves, assim o de base ganha 500 e o administrador 2500. Mas mesmo assim não dá pq o Adm. precisa de um bom carro e isso é caro. Se for 10X ai já começa a ser alguma coisa, mas bom seria 20X (já vamos em 10000 €).
    Mas, se aumentarmos o número de horas de trabalho, posso despedir alguns e já sobre mais algum dinheiro dos salários, se cortar nas horas extras sobra mais ainda, e se impedir o aumento dos ordenados em 3% (0,50 cêntimos dia) e aumentar o preço consoante a inflação consigo guardar ainda mais.
    Agora sim, consigo ter um ordenado modesto de 22000,00 mês.
    Considero isto completamente justo, desde que o administrador trabalhe 44X mais o operario fabril, o servente, a mulher da limpeza, etc.
    Tem que ser 44X, não 2X, 3X, 5X, 10X, 20X, etc. (e há quem ganhe muito maís…)

    Temos que achar no meio disto um valor justo de forma a distribuir de forma igualitária em consonância com o tipo de trabalho e não com o poder e desespero de uns e outros.

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