O Capítulo Perdido de “O Príncipe”, de Maquiavel

O lema deste blog é: “Um misto de sátira e de ideias políticas, em que nunca se tem a certeza do que é sátira e do que são as convicções”.

O que eu acho estranho é que eu próprio não consigo decidir se os meus escritos são só para fazer pouco do Sistema ou se acredito em alguma coisa daquilo que escrevo.

E isso, não me parece normal.

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O Capítulo Perdido de “O Príncipe”, de Maquiavel

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Passo a vida a ler na net e a ouvir nas notícias que os cidadãos deste país clamam por mais transparência.

É algo que soa instintivo. Se houver mais transparência, há menos negociatas e os malandros dos políticos já não conseguem meter dinheiro ao bolso.

Eu, como de costume, discordo. Acho que a questão da transparência está a ser vista duma forma infantil.

Vamos olhar para dois exemplos históricos.

O maior golpe do século XX foi dado pelos americanos. Sendo a única grande nação que saiu incólume da Segunda Guerra Mundial, conseguiram convencer todo o mundo ocidental e parte do terceiro mundo a usar o dólar como divisa de reserva, nos bancos centrais de cada país.

Este pequeno sucesso administrativo teve como consequência que os americanos mantiveram, durante várias décadas, um nível de vida 3 vezes acima do que deveriam ter, face ao que, efectivamente, produziam (nota: 3 vezes é um exemplo, eu não sei a proporção exacta).

O leitor pode estar um pouco confuso, mas eu vou explicar.

Normalmente, se um país produz 100 litros de azeite, deverá emitir moeda suficiente para que as pessoas possam comprar o azeite que foi produzido, nem mais nem menos, sob risco de causar inflação ou recessão. Mas se eu conseguir convencer o Japão, a Alemanha e o Burundi a usar a minha moeda como reserva de divisa estrangeira, esses países precisam que eu emita moeda, para eles guardarem na gaveta.

Posso, por isso, produzir 100 litros de azeite mas emitir moeda que dava para comprar 300 litros. Não causa inflação, porque os 200 de moeda em excesso ficam guardados em gavetas nos Bancos Centrais do Burundi, do Japão e da Alemanha.

É fantástico, não é? Não produzo muito, mas posso viver à grande. Foi assim que os Estados Unidos se tornaram riquíssimos nas décadas pós 2ª Guerra. Trabalharam alguma coisa e complementaram com um golpe de génio.

Quantas pessoas é que, na década de 50, tinham uma compreensão profunda desta situação? Muito poucas. Devia dar para contar pelos dedos.

Se o planeta todo percebesse os detalhes, não teria funcionado. Ao próprio povo americano era dito que estavam cada vez mais ricos porque eram muito trabalhadores e muito inteligentes. Por sorte deles, o sistema não era transparente e a elite estava a pregar um conto do vigário mundial, para benefício nacional (e próprio, como é óbvio).

Esta situação não tem nada de excepcional.

Quando os Japoneses ocuparam Timor, na 2ª Guerra Mundial, a forma transparente de resolver o assunto era enviar um exército de Lisboa para o outro lado do mundo…

Como era uma solução claramente idiota, Salazar fez um negócio com os americanos. Deu-lhes uma base militar nos Açores a troco dumas vantagens públicas e de duas promessas “debaixo da mesa” – os americanos devolveram Timor a Portugal após a derrota do Japão e (durante alguns anos) não levantaram problemas ao império colonial português.

Com transparência, Timor teria ido com os porcos.

Eu podia gastar páginas em exemplos, mas não vale a pena. Toda a gente sabe que os Suiços passaram de miseráveis a ricos a guardar o dinheiro dos criminosos do planeta e que a grande produtividade dos Islandeses, afinal, era baseada numa mega trafulhice financeira dos seus bancos. Há exemplos até vir a mulher da fava.

Até cá no burgo, os Madeirenses subiram vários furos na escala económica porque o cacique local aldrabava as contas. Discretamente, como é óbvio.

Para passar de pobre a rico, a receita clássica é, inequivocamente – sem transparência. Há uma ou duas excepções, mas são excepções.

Imagino o leitor, indignado com a lassidão moral deste artigo, a protestar:

– Mas foram apanhados e vão pagar.

Se calhar vão, mas estão muito melhor do que estariam se o Alberto João não fosse Chico Esperto.

Contrariamente a todos estes líderes de baixo coturno, o actual governo português faz questão na transparência.

Os outros, podem suspirar de alívio. Eu fico lívido, sem pinga de sangue.

Portugal tem uma dívida de duzentos mil milhões de euros, ou coisa que o valha.

Se o acordo com a Tróika é transparente, isso quer dizer que nós vamos ter de pagar aquele abismal montante de dívida que está lá escrito, com as cláusulas que toda a gente conhece.

Cláusulas públicas… transparentes.

Vamos pagar a dívida, todinha.

A trabalhar!

Eu não quero pagar duzentos mil milhões a trabalhar.

Não quero dar o litro até cair para o lado como fizeram os alemães nas décadas de 50 a 90. Quero resolver isto como os Americanos, os Islandeses e os Suiços – quero que alguêm esperto arranje uma solução.

Aliás, faz-me uma certa confusão que os nossos dirigentes, cheios de doutoramentos em universidades famosas, tenham como única solução para sair da crise – trabalhar!

Para essa solução, não é preciso um doutoramento, basta uma enxada.

Nesses MBA’s que constam dos curriculums dos ministros havia umas aulas de “lateral thinking” (pensamento criativo, soluções imaginativas). O que é que aconteceu? Faltaram às aulas? Estiveram na night e não conseguiram acordar a horas? Todos os nossos dirigentes faltaram a essas aulas? Logo a essas? Todos? Ao mesmo tempo?

É muito estranho.

Faz-me ainda mais confusão quando vejo o Pinto da Costa, que não tem curso nenhum, e tem quilos de “lateral thinking”.

O problema de Portugal não é falta de transparência governativa. O problema é que tem a transparência no sítio errado.

A governação autárquica e a generalidade da Administração Pública devem ser transparentes. Os titulares dos cargos devem ser escolhidos por mérito, não deve haver conflitos de interesse, os licenciamentos e outros actos administrativos devem ser baseados em critérios legais, verificáveis por terceiros, etc.

Infelizmente, em tudo isso, há muita coisa nebulosa, que deixa desconfianças.

Essas áreas deviam ser transparentes e não são.

A pontinha do topo da pirâmide é, neste momento, completamente tansparente.

É transparente e não devia ser!

É no topo da pirâmide que se inventam os esquemas que permitem a alguns países destacar-se dos outros. Usando, obviamente, métodos inconfessáveis e o mais discretos possível.

Ora, Portugal tem tudo ao contrário. É transparente no topo e trafulha daí para baixo.

Ainda mais inacreditável. Tem no topo da pirâmide economistas e engenheiros com doutoramentos no estrangeiro que não arranjam forma melhor para pagar dívidas a não ser trabalhando e tem, nos níveis inferiores da hierarquia do Estado, indivíduos (muitos sem qualquer formação académica) que montam esquemas que lhes permitem, com ordenados de dois mil euros, andar em carros topo de gama e ter vivendas no Algarve.

Mas será que só eu é que acho que o sistema está montado ao contrário? Mais ninguêm vê isso?

Quem lê o meu blog já percebeu que adoro debruçar-me sobre problemas globais complicadíssimos.

Sou incapaz de arranjar o autoclismo da casa de banho, que não pára de correr, mas tenho solução para as distorções do sistema bancário, na China.

Cada um é para o que é.

Ora, o problema português da transparência invertida tem-me tirado o sono e acho que já identifiquei as suas origens.

Voltando aos golpes que os Estados Unidos e a Suiça montaram e que tornaram esses países imensamente ricos, há algo muito importante a ter em conta. Os golpes não foram montados por governantes eleitos – foram montados por uma aristocracia poderosa, que operava nos bastidores.

Os políticos ganham e perdem eleições. Fazem uns disparates, acertam noutras coisas, levam banhos de multidão, beijam bébés… Os políticos são ruído de fundo. As grandes opções nacionais têm de ser geridas, com estabilidade, ao longo de gerações.

O segredo bancário Suiço não foi criado por um político que esteve dois ou três anos no poder e depois passou a pasta ao seguinte (que até era da oposição) e a quem disse:

– Eh pá! Está aqui a pasta do segredo bancário. Foi uma ideia minha e a coisa está a correr bem. Tenta cumprir o projecto.

Isso não funciona. Estas coisas são geridas ao longo de décadas, por famílias poderosas, com quem os políticos nem sonham em meter-se.

Idem idem, aspas, aspas para a trafulhice americana dos dólares como divisa de reserva. Foram os Rockefellers, os Rothschild e outros cujos nomes, de tão ricos que são, nem constam da lista da Forbes. Não foi o Truman nem o Kennedy.

Nesses países, toda a gente sabe quem manda. Os assuntos nacionais importantes são geridos pela aristocracia, os governantes eleitos, discutem ninharias.

Ora, em Portugal, não há aristocracia.

Nós entregamos todos os nossos assuntos aos políticos.

O problema tem origem no período pós 25 de Abril, em que enviámos uns juristas para estudar as constituições dos outros países, com o objectivo de criar o nosso próprio sistema democrático.

As pessoas que enviámos eram sérias, bem intencionadas e percebiam de Direito, mas eram tótós – não percebiam nada das realidades da vida. Leram as Constituições dos outros países, acreditaram no que estava lá escrito e montaram um sistema igual aqui, em Portugal.

Obviamente que as Constituições dos outros países não tinham nenhum artigo a explicar que parte daquilo era só a “fazer de conta” e que havia outras forças por detrás a gerir o país.

Nós copiámos a parte do “faz de conta” e depois achamos muito estranho que a coisa não funciona.

Adivinho que vários leitores estão, neste momento, a pensar:

– Mas você é contra a democracia? Contra as eleições livres?

Por amor de Deus, nem pensar. Longe de mim. Sou completamente a favor da realização de eleições livres.

Só acho mal é que o país seja governado pelas pessoas que vencem essas eleições.

Afinal de contas, quem é essa gente?

Um era desenhador na Câmara da Covilhã, outro trabalhou na Formentinvest. Acredito (sem sátira) que sejam excelentes pessoas e que tenham óptimas intenções. Mas o que são a Câmara da Covilhâ e a Formentinvest?

Nós elegemos esses políticos e depois mandamo-los lá fora falar com o Sarkozy e a Merkel. Até aí, tudo bem.

Acho mal é que não mandamos ninguém falar com os Rockefellers, os Rothschild e companhia. Ora o Sarkozy e a Merkel também foram eleitos, também são excelentes pessoas (sem sátira) mas também não mandam nada.

E nós não temos ninguém para ir falar com quem realmente manda.

À conta disso, estamos metidos num buraco de duzentos mil milhões.

Algum leitor, bem intencionado mas ingénuo, poderá sugerir, com ar tímido e voz quase inaudível:

– Não se pode mandar o Passos Coelho falar com os Rockefellers?

Ó amigo, desculpe o meu ar paternalista, mas realmente, creio que você não percebeu nada do que eu estive a dizer.

Para já, nem era recebido. Governante eleito é vários furos abaixo de aristocrata. Governante eleito português, então, é… enfim, adiante…

Mas mesmo que, devido a algum erro de secretariado, fosse recebido, ele nem saberia do que falar.

A triste realidade, é que Portugal não tem ninguêm com pergaminhos suficientes para ter reuniões a esse nível e não tem uma aristocracia com poder para gerir as grandes opções nacionais.

É como ter uma empresa em que há uns comerciais a tratar do dia a dia das vendas e uns administrativos a emitir as facturas, mas em que não há ninguém a tomar decisões estratégicas de fundo.

O que é que acontece a uma empresa dessas? Estoura!

O que é que aconteceu a Portugal? Desde 1974, já estourou três vezes.

Grande coincidência, não é?

Os poucos leitores que, nesta altura do texto, ainda possam ter algum interesse pelas minhas anómalas opiniões políticas, estão seguramente a pensar:

– Mas, afinal, qual é a solução que ele propõe?

Sinceramente, não tenho solução alguma. Portugal não tem uma aristocracia funcional que possa fazer a gestão das grandes opções estratégicas e uma aristocracia não é coisa que se crie de um dia para o outro.

Quando não há… não há…

Por outro lado, salvo raras excepções, não podem ser os políticos a gerir as opções estratégicas. Não só porque  não estão tempo suficiente no poder como ainda porque essas opções exigem sigilo e os políticos estão permanentemente a ser escrutinados pelos media e pela oposição.

Para além disso, não há ninguém com capacidade para gerir com sucesso as opções de fundo de um país inteiro e que esteja interessado em ganhar o ordenado do Primeiro Ministro português.

Sendo assim, então, os nossos governantes têm razão: a única solução para sair da crise é trabalhar.

Pois é. Eles já lá tinham chegado e eu não.

Mas não se iludam, trabalhar é apenas solução para pagar parte da dívida, com muito esforço e miséria.

A solução para sairmos destes ciclos eternos de estoura / recupera e volta ao mesmo, para além de trabalho, implica alterações profundas na estrutura de poder.

E isso, não me parece que vá acontecer.

Pelo menos, por agora…

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Nota: Depois de escrever este texto, descobri (com surpresa) que ele contém a resposta à questão que ficou em aberto no artigo sobre a esquerda e a direita. É involuntário, mas aconteceu. Se nunca leu o artigo e tiver curiosidade, é só seguir o link:

Sobre A Esquerda E A Direita

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Se estiver farto de política, pode ler

O Príncipe e a Singularidade – Um Conto Circular

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P. Barrento 2012

http://www.facebook.com/pedro.barrento

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7 responses to “O Capítulo Perdido de “O Príncipe”, de Maquiavel

  1. «O que eu acho estranho é que eu próprio não consigo decidir se os meus escritos são só para fazer pouco do Sistema ou se acredito em alguma coisa daquilo que escrevo. E isso, não me parece normal.»
    A mim parece-me normal, e julgo que é um exercício de ironia para a qual somos empurrados por este mundo paranóico (porque permanentemente paradoxal) em que vivemos. Essa sua frase remeteu-me para um sub-título que em tempos tive no meu blogue, e que era uma citação qualquer de Harold Pinter, mas já não me recordo da frase. Talvez qualquer coisa dita por uma das personagens de OS ANÕES. Posteriormente usei «A realidade é uma ficção, por vezes hilariante, outras vezes assustadora», e, actualmente: «presos na vastidão do mundo ou livres na exiguidade do claustro acompanha-nos o medo – até lá, o humor» (o título do blogue: Claustro Fobias). Qualquer um desses subtítulos, tentando eximir-se sob uma capa de humor, não reflecte mais do que a descrença motivada pelo desconcerto do mundo, ou melhor, do meu desconcerto perante o mundo. Mas, enfim, eu consigo arranjar o autoclismo da casa de banho. E digo eu: tragédia maior é o facto de grande parte do eleitorado do nosso país tomar um discurso claro e assertivo como o do seu texto, por uma piada de stand-up comedy.

  2. Para resolver o seu problema de falta de aristocracia para as opacidades, eu adoptaria a solução Paulo Futre: importam-se uns chineses. Indescrutáveis e dominadores do mundo já o são.

    Ou então, o próprio Futre cuja aparência disparatada e apalhaçada mais não deve ser uma máscara para ocultar a sua verdadeira actividade: a de bonecreiro.

  3. Que texto tão assertivo.

    Parece-me no entanto que para ser mais actual precisa de perder o conceito de entidade nacional. Por este prisma, são as entidades privadas e os bancos quem faz as fronteiras entre povos.

    E já agora, posso aproveitar para perguntar: que objectivo comum une esta aristocracia? Ou melhor, que objectivo nos une a todos? Além da mais que comum manutenção de bens, o que há para lá?

    Acho que vou ver o sentido da vida pelos Monthy Python.

    • São perguntas muito legítimas, que provam que leu o texto com os neurónios todos a funcionar mas demasiado densas para um texto satírico e para um escritor menor como eu. A ideia de ir ver Monty Python a seguir ao texto faz-me todo o sentido. Acho que nós dois temos alguma sintonia mental, sem com esta frase querer insinuar que me situo ao mesmo nível de leitores tão ilustres.

  4. Caro brjnica

    “Portugal não tem uma aristocracia funcional que possa fazer a gestão das grandes opções estratégicas.”

    E precisa ter? Nunca ninguém exigiu nada… Em terra de cego, quem tem um olho é rei … E “prontes.”

    Entretanto, parece-me que temos uma “aristocracia” que se contenta em ser subdominante… Uma ideia que fica clara quando vemos a definição de Oligarquia:

    ” As oligarquias são grupos sociais formados por aqueles que detêm o domínio dos meios de comunicação, da política e da economia de um país, e que exercem esse domínio no atendimento de seus próprios interesses e em detrimento das necessidades das massas populares; os interesses oligárquicos estão diretamente relacionados aos interesses do imperialismo (o domínio de um país para o atendimento das necessidades – também oligárquicas – de um outro país, este dominante); o imperialismo, por sua vez, participa diretamente da sustentação daqueles grupos sociais oligárquicos no domínio do ‘seu’ país: os oligarcas de um país dominado são, portanto, ‘subdominantes.”

    Serem subdominantes, em nossa paróquia, já está de bom tamanho para que mais? Isto já satisfaz a nossa “aristocracia”… E prontes !!!

  5. Giro! Evidente que a Aristocracia que falta é substituída pela Tecnocracia
    Europeia.
    Já assim tinha sido aquando das invasões francesas, quando a Corte fugiu, e Portugal era governado pelos ingleses.

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