Sobre a Democracia, a Inclusão e a Economia

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Sobre a Democracia, a Inclusão e a Economia

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A democracia parlamentar foi cuidadosamente concebida para que as pessoas se identificassem  com os orgãos governativos. Os políticos fazem campanha pelos seus projectos e os eleitores votam livremente nos candidatos que preferem. Os que obtêm mais votos são eleitos deputados e formam a Assembleia da República, na qual não existe uma única pessoa que não tenha sido eleita por voto popular directo. Das maiorias existentes na A.R. resulta a formação de um governo.

Todo este processo tem por objectivo a constituição de uma Assembleia da República e um governo com os quais a população tenha ligação emocional.

Estranhamente, eu não conheço ninguém que se identifique com os orgãos de soberania. A situação passou, aliás, de peculiar a psico coiso há uns meses atrás, quando, incrédulo, vi na televisão o ilustre constitucionalista Jorge Miranda, um dos principais responsáveis pelo texto da Constituição Portuguesa confessar, com ar tímido e atrapalhado (pudera!), que há muito que votava em branco nas eleições, por não se conseguir identificar com nenhum partido.

Se o Jorge Miranda não se consegue identificar com o sistema que ele próprio montou, algo de muito errado se está a passar…

Contrastemos esta situação com a vivida no Futebol Clube do Porto.

O clube é dirigido há 30 anos por Pinto da Costa, o qual é regularmente reeleito num acto que, convenhamos, não passa de mera formalidade.

Pinto da Costa gere o clube a seu belo prazer e com total autonomia. Compra e vende os jogadores que bem entende, admite e demite treinadores, faz trocas, empréstimos e recebe (a acreditar na net) cerca de 700 mil euros de salário.

Também a acreditar na net, existem dois milhões de adeptos do F.C.P., os quais sofrem com cada jogo e comemoram, eufóricos, as vitórias e as conquistas de títulos.

É uma total identificação emocional com um clube no qual não mandam peva, para cuja gestão não são perdidos nem achados e cujo presidente ganha oito vezes mais do que o Primeiro Ministro (do qual toda a gente diz mal. Sempre! Seja de que partido for).

Para além disso, pagam pelo privilégio de ser sócios, assistir aos jogos, comprar o cachecol do clube, a t-shirt, etc.

Pagam voluntariamente. Ninguém os obriga.

O Estado, em compensação, vê-se e deseja-se para conseguir que as pessoas contribuam com impostos obrigatórios para a implementação dos projectos que elas próprias disseram, em eleições livres, que queriam.

Como se tudo isto não bastasse, quem quiser dar por aí uma volta nos fórums da net vai encontrar centenas de pessoas a clamar pela redução do mísero (comparativamente) salário do Primeiro Ministro.

Nunca vi ninguém em fórum algum a dizer que o Pinto da Costa ganha demais.

Sejamos objectivos. Estamos a comparar uma democracia em que não há qualquer empatia entre os governantes e os eleitores com uma ditadura em que há total devoção dos governados para com o líder.

Por muito que doa, esta é a realidade.

Das duas uma. Ou alguém explica isto ou temos de concluir que a ditadura funciona melhor do que a democracia.

Em primeiro lugar, há que reconhecer uma coisa. As ditaduras raramente funcionam, mas as que funcionam exercem um fascínio irresistível.

A democracia cria a si própria vários problemas. O mais devastador é a insistência na inclusão total.

O F.C.P. não é inclusivo, é, por definição, exclusivo. Ser do Porto é ser contra o Benfica, o Sporting e todos os outros clubes de Portugal e do mundo. O “nós” é a essência de ser Portista e o nós é a rejeição dos que o não são.

Eu tenho a firme convicção (sem provas inequívocas que a sustentem, confesso) que para haver empatia de grupo tem de haver um inimigo.

Não é preciso ser uma ditadura para ter um inimigo. As próprias democracias, quando o têm, ficam logo mais fortes. As democracias europeias funcionavam melhor enquanto tinham o Bloco de Leste aqui ao lado, ameaçador e perigoso. No dia em que o muro de Berlim caíu e o inimigo desapareceu, as democracias, paradoxalmente, ficaram debilitadas.

Quem é o dirigente português com mais sólidas e duradouras maiorias? Alberto João Jardim. Gere uma ilha distante do resto de Portugal, o que lhe permite fazer um discurso do tipo: “Nós, Madeirenses, temos de estar unidos para não sermos espezinhados pelos do Contnênt”. Há um inimigo e a diferença nota-se logo.

A razão pela qual as democracias são inclusivas é uma razão lógica, não uma razão emocional. A análise histórica leva-nos a concluir que a inclusão evita guerras civis, massacres e conflitos entre nações. Evita tudo isso, mas cria um atrito diário desgastante e impopular.

A exclusão tem algumas vantagens, mas traduz-se sempre em violência. No caso do futebol, torna necessário colocar polícia nas pontes que há sobre a auto-estrada A1, quando há jogos entre o Benfica e o Porto. A violência gerada no futebol é um pequeno custo, face às enormes vantagens do clubismo. No caso das nações, a violência da exclusão é muito maior e sobrepõe-se amplamente às vantagens obtidas.

A lógica pode dizer-nos que a inclusão é benéfica, mas todo o nosso emocional é a favor da exclusão – o clubismo, o bairrismo, o racismo, o nacionalismo.

Até os meios ferrenhamente defensores da inclusão estão crivados de exclusões: o partidarismo, a clique intelectual que se acha a si própria detentora duma qualquer verdade artística (musical, literária ou o que seja) os revolucionários que gritam “não há liberdade para os inimigos da liberdade” – são tudo exclusões.

Tudo o que cria um “nós” distinto e oposto aos outros tem um apelo directo ao nosso lado animal. Os líderes desses grupos “exclusivos” são muitas vezes imensamente populares, contrariamente aos líderes da inclusão que, na melhor das hipóteses, são, com má vontade, obedecidos.

Passemos à análise da democracia em si.

A ideia de que a diferença entre um regime democrático e um regime ditatorial está na possibilidade de contestar o próprio sistema é uma fantasia total.

A diferença entre um regime democrático e um regime ditatorial está em que no primeiro a contestação ao sistema é reprimida por formas não físicas enquanto que no segundo a contestação é reprimida pelo recurso à força.

Como esta afirmação é contrária a tudo aquilo que nos ensinam, exige explicação e prova.

A nossa democracia tem vários tabus que é proibido discutir. Desde o 25 de Abril de 1974 até hoje decorreram 38 anos. Em todo esse tempo alguém assistiu, uma única vez que fosse, a um debate na televisão sobre democracia ou sobre racismo?

Os leitores estão todos, neste momento, a pensar – “Sim, por diversas vezes”.

É mentira. Assistiram a dezenas de mesas redondas em que todos os participantes declaravam que eram democratas e anti racistas. Isso não são debates, são missas. São rituais intrinsecamente contraditórios, supostamente pró-democracia e pró-inclusão. São cerimónias a jurar lealdade ao sistema e eventualmente a debater ligeiras diferenças de pontos de vista.

As únicas alturas em que na tv é possível assistir a comentários fora do sistema é em situações de “entrevista de rua”, em que um transeunte com ar pouco culto faz uma observação de que “no tempo do Salazar é que era” ou “desde que vieram para aqui os ciganos, é só assaltos”.

Tais observações são sempre enquadradas de forma que torna óbvio que aquele transeunte é pouco culto, pouco inteligente ou pouco esclarecido. Pior ainda, são apresentadas de forma a dar a entender que aquela é a opinião das pessoas que têm criticas a fazer ao sistema. As observações dele não fazem parte dum debate – são apenas o sistema a gozar com um idiota, claramente apresentado como tal.

Essas situações fazem lembrar as festas que os romanos organizavam para comemorar uma grande batalha ou um grande general. Punha-se na arena um gladiador profissional, fortemente armado e protegido e meia dúzia de prisioneiros sem protecção, armados com punhais. O gladiador, de forma previsível e diligente, chacinava os oponentes, para gáudio da assistência e louvor da batalha ou general em causa. Era um acto comemorativo, não era um combate.

As entrevistas de rua com indivíduos tontos a dizer disparates contra a democracia ou contra a inclusão são paródias comemorativas do sistema.

É como se as únicas opiniões que aparecessem na tv contra o capitalismo fossem umas frases ditas por uns labregos com ar estúpido, do tipo: “O que é preciso é fuzilar os ricos e distribuir as coisas pelo povo”.

Estava decidido, sendo esta a opinião típica dos inimigos do capitalismo, não fazia sentido fazer debates sobre o assunto na tv, pois não?

Da mesma forma, identificando-se os opositores ao sistema como sendo todos pela prisão sem julgamento dos  ciganos e pelo fim de eleições livres, também não vale a pena fazer debates sobre o assunto, pois não?

Adivinho já o último grande argumento – “Não há debates porque não há ninguém com nível disposto a  participar num debate desses”.

Não há debates sobre esses assuntos porque qualquer pessoa com nível suficiente para o fazer com qualidade tem a sua vida dependente de empregos, negócios e social networking que se desmoronariam se participasse num debate a defender posições proibidas.

Imaginem um político de primeiro plano ou um gestor de topo a defender num debate posições contra a definição actual de inclusão ou de democracia. O aparelho de Estado ficava-lhe todo vedado a partir desse dia, assim como o acesso à televisão. Os privados também não se iam arriscar a lidar com ele porque trazia-lhes vários riscos e nenhuma vantagem Era o fim da sua carreira.

Não haja ilusões, democracia ou não, é proibido discutir o cerne do sistema.

Passemos à parte económica.

Na parte económica é possível defender publicamente qualquer tipo de posição. Pode-se ser a favor da nacionalização dos meios de produção, da privatização das empresas públicas, da liberalização dos despedimentos, da proibição dos despedimentos – pode-se dizer tudo o que se quiser.

Poder, pode, não tem é consequência alguma.

Imaginemos que, contra a enorme máquina que está montada para o impedir, alguém chegava ao poder com intenções de alterar componentes do sistema económico. Ia rapidamente descobrir que não podia alterar nada.

Este vosso humilde articulista, por exemplo, era elevado à posição de Primeiro Ministro e controlava uma maioria absoluta na A.R.

O meu primeiro pacote de medidas era todo ecológico:

   – Proibição do excesso de embalagem. Os pacotes de cereais que vêm num saco de plástico dentro duma embalagem de cartão enorme passavam a vir só no saco, que não podia ser maior do que o respectivo conteúdo. Os dizeres da marca tinham de ser impressos no próprio saco, o qual era bio-degradável e se desfazia terminada a data de validade do produto.

   – Os dois ou três milhões de jornais gratuitos que se distribuem no metro e pelas ruas todos os dias e que as pessoas folheiam durante alguns segundos antes de deitarem fora eram proibidos.

Estas duas medidas simples, ingénuas e pouco revolucionárias seriam facilmente anuladas em tribunal ou, caso necessário, com recurso às instituições europeias, por violarem normas sobre a actividade económica, tratados comunitários e internacionais.

A única forma de as implementar era fazer uma revolução total. Sair da U.E. e do Euro (duas instituições de que, eu, por acaso, até sou a favor) e a seguir alterar então a legislação.

Qualquer dirigente que o faça por iniciativa própria perde rapidamente o poder porque as saídas da U.E. e do Euro trariam um tal sofrimento económico que só podem acontecer por colapso, não por opção.

Moral da história. Pode-se ter as opiniões que se quiser sobre economia, mas é irrelevante, porque não se pode alterar nada.

Para proteger este ferrolho económico, quase todos os cargos que, a nível internacional, garantem a manutenção do sistema, são ocupados por ex-funcionários ou pessoas relacionadas com a Goldman Sachs. Não sei se alguém montou tudo isto de forma premeditada e com visão de conjunto ou se foi só acontecendo, mas é um sistema fascinante, de uma beleza perversa. Se foi premeditado, é uma obra de génio.

O sistema económico só é alterável com uma revolução total. A revolução só é possível se grande parte da população estiver tão desesperada que não se assuste com o colapso económico. Até que tais premissas se verifiquem, a economia é intocável.

Em resumo: É proibido debater os elementos essenciais do sistema político e é proibido fazer alterações económicas que não sejam puramente cosméticas. Visto assim, passa a fazer todo o sentido que os eleitores não se identifiquem com os orgãos de soberania.

É uma conclusão incómoda mas eu não consigo arranjar forma de a contestar.

Essa história da carochinha que se ensina aos alunos nas escolas que diz que a democracia é um sistema político em que os cidadãos livremente determinam as escolhas governativas e a configuração do sistema é apenas isso… uma história da carochinha.

Imagino, neste momento, o leitor, deprimido e cabisbaixo, a perguntar:

– Mas acha que devemos dizer isso às pessoas?

Aos tontos, aos artistas, às crianças e às virgens não acho que se deva dizer. São seres puros e devem ser protegidos das coisas desagradáveis deste mundo.

A todos os outros, acho que devemos contar a verdade. Em primeiro lugar, por uma questão de princípio – para não andarem enganados, a fazer figura de parvos. Em segundo lugar, porque as eleições são sempre ao Domingo e assim as pessoas ficam livres para irem fazer outras coisas, eventualmente mais interessantes.

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Se gostou deste artigo, sugiro que leia:

O Capítulo Perdido de “O Príncipe”, de Maquiavel

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Se estiver farto de política, pode ler

O Príncipe e a Singularidade – Um Conto Circular

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P. Barrento 2012

http://www.facebook.com/pedro.barrento

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8 responses to “Sobre a Democracia, a Inclusão e a Economia

  1. É por demais evidente que o sistema está montado para funcionar assim e nunca mudará a nao ser que haja uma intervenção ET ou que a populaça consiga voltar a viver na idade da pedra
    Sem luz
    Sem agua potável
    Sem combustíveis
    Sem telemóveis
    Sem consumir bens dos quais nao precisa
    Sem Sport Tv
    Sem telenovelas
    Desobeçendo à Autoridade Tributaria nao pagando impostos
    Tirando todo o dinheiro dos bancos

    Nenhuma destas hipóteses me parece que venha a acontecer por isso viveremos sempre como gladiadores pagos lutando até à morte por uma migalha para entreter alguns imperadores que todos os dias se riem de nós obviamente com a intenção de protelar os seus reinos.
    Foi assim sempre desde que existe gente nesta bolinha azul.
    Mudou alguma coisa?
    Sim na minha opinião grande evolução tecnológica ,e estupidificaçao de massas
    Jay efe

    • Infelizmente é essa a quase a verdade. O único reparo é que tal como na Roma Antiga, o imperador e amigos são poucos, os galdiadores alguns e os prisioneiros abundantes.
      Com qual deles é que você se identifica…

  2. Para perceber bem como funciona a economia vão a este site http://www.zeitgeistmovie.com/ e façam o download deste torrent : “ZEITGEIST: ADDENDUM 2008” , vejam e revejam , abram os olhos .

    Nota: O torrent é gratuito e é permitido o seu download , o autor do documentário autoriza o download .
    Caso não usem torrents e percebam ingles bem entao vejam o filme directo no youtube em :

  3. parece que de acordo com a sua resposta ao comentário acima, está a pensar que tem, de um modo geral, leitores burros e só uma vez por outra é que lhe aparece alguém inteligente??? isso é muita presunção….

  4. Parece-me, no meu parecer de ” transeunte (…) pouco culto, pouco inteligente ou pouco esclarecido ” que a estratégia válida para o humano comum é a de se concentrar no seu próprio bem e deixar as questões englobalizadoras para quando essas forem directamente e concretamente, benéficas ao seu bem indivídual.
    Ir votar e ir à missa é mais ou menos a mesma coisa. Não acredito em seres suprahumanos e por isso não vou à missa dominical. Tendo no entanto consciência de que isso não afecta minimamente os milhões de pessoas pelo mundo que assistem à missa domingueira, nem afeta a global instituição que a promove e que se mantém no seu papel secular, que foi sendo moldado pelos tempos e pelas circunstâncias, num processo não muito diferente do processo de evolução da democracia.
    Mas, lá por não praticar/acreditar/exercer, isso não quer dizer que tenha algum problema em baptizar os meus filhos, casar-me pela igreja, assistir a cerimónias religiosas de celebração de outros casamentos e baptizados, ou de participar em algumas outras celebrações religiosas, pelo simples facto de que tal me é benéfico, ou menos penalizante se preferirem, na sociedade em que estou inserido.
    Usando a mesma lógica, não voto porque votar não me traz nenhum benefício directo. Nem o facto de eu não votar afecta minimamente a estabilidade socio-política nem a eventualidade de eu exercer o meu “sacrossanto” direito de voto alteraria o quer que fosse na estrutura montada do sistema democrático, pois essas alterações quando acontecem, são derivadas de evoluções e convulsões globais que não se baseiam na minha cruzinha dentro do quadradinho.
    Mas se algum dia alguém me proposer a hipótese de figurar numa lista de um qualquer partido, em lugar elegível que me possa dar acesso a um “tacho”… lá estarei eu a aparecer perante as câmaras papparazicas dos telejornais a bradar aos céus as grandes qualidades do sistema democrático.
    Aproveite-se o que a vida nos der para aproveitar e não se perca tempo com aquilo que não se pode mudar.

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