Amorim, Amorim aos Molhos…

.

Amorim, Amorim aos Molhos…

.

Sempre gostei de ler a lista anual da Forbes que hierarquiza as maiores fortunas do mundo. Leio-a com o mesmo espírito com que algumas mulheres leem aquelas revistas que mostram as casas dos ricos, os carros dos ricos e as roupas que levaram ao casamento da “não sei quantas”.

Não sei porquê, mas aquilo dá-me gozo.

“Bill Gates – 61 mil milhões de dólares – Estados Unidos”

“Ah, coitado, caiu para segundo lugar este ano”. Mas depois, lembro-me. Caíu porque começou a dar o dinheiro para a Fundação, para ajudar os pobrezinhos em África. É boa pessoa, sim senhor. O malandro do Carlos Slim (Mexicano) passou para primeiro lugar porque não dá nada a ninguém – “Bbbuuuuuu”.

Vou-me entretendo neste exercício

Olha, olha, o gajo da Zara já vai em quinto lugar. Trinta e sete mil milhões a vender t-shirts, quem diria… Os espanhóis são terríveis. É preciso ter muito cuidado com os espanhóis. Aquilo não é boa gente.

Por fim, na posição 200, aparece o Américo Amorim, com cinco mil milhões de dólares.

Aí a coisa fica pessoal.

Que pouca vergonha. O homem tem cinco mil milhões e há para aí gente que não tem para comer.

No momento, fiz umas invectivas às injustiças deste mundo e a coisa passou mas nos dias seguintes fui cada vez mais atraído pelo assunto e cheguei a conclusões estranhas.

Quando se fala da injustiça de alguém ter 5 mil milhões, há um raciocínio oculto e presumido, mas nunca claramente consciencializado.

É mais ou menos assim:

Uma pessoa que ganha 500 euros por mês gasta 500 euros. Uma pessoa que ganha 2.500 euros por mês gasta 2.500 euros. Quem ganha 5.000 por mês deve gastar perto de 5.000 (talvez ponha qualquer coisita de lado). Quem ganha 20.000 euros deve gastar muito dinheiro todos os meses. Quem tem 5 mil milhões gasta…  eh pá, não sei, mas deve gastar brutalidades.

O raciocínio vai ficando mais vago à medida que o montante aumenta, porque o assunto vai-se distanciando da realidade a que a maioria das pessoas está habituada e consequentemente vai transitando do conhecido para o imaginado.

Se olharmos para a lista anual da Forbes, constata-se que a mesma tem uma certa estabilidade e que aquelas fortunas e aqueles nomes mantém-se de ano para ano. Muitas delas duram há décadas, algumas duram há gerações. Quando caem umas posições normalmente não é porque espatifaram 50 Ferraris nesse ano, mas sim porque houve flutuações nos valores de Bolsa.

O que eu pretendo dizer com isto é que a partir de um certo montante, o aumento duma fortuna não corresponde a um aumento de gastos mas sim a um aumento de poder e de património para gerir. Quem tem 10.000 milhões não gasta o dobro do que gasta quem tem 5.000 milhões. O que gasta tem a ver com o seu feitio e estilo pessoal e não com o dinheiro que tem.

Vamos então momentaneamente esquecer o formalismo da titularidade dos bens e separar o assunto em gestão e uso.

Se sobrevoarmos Portugal de helicóptero constatamos rapidamente que há um montão de coisas cá dentro – milhões de casas, terrenos cultivados, hotéis, pavilhões desportivos, o diabo a sete. Para além do que vemos do helicóptero, há uma quantidade enorme de valor que não é perceptível a olho nu. Se sobrevoarmos uma fábrica do Grupo Amorim, contamos apenas como mais um edíficio, mas o facto é que aquele edifício gera um valor muito superior por metro quadrado ao das restantes casas da mesma zona.

Dei uma voltita na net (grande invenção) e constatei que o “Gross Domestic Product” de Portugal (bens e serviços produzidos num ano) é de cerca de 240 mil milhões de dólares. Para além disso, existe o valor do imobilizado do país inteiro. Não sei quanto é, mas entre o valor do que cá está construído e do que se produz todos os anos, há uma pázada de massa para gerir.

Agora vamos imaginar que se tinham queimado todos os registos das conservatórias comerciais e prediais do país e que portanto NADA tinha dono.

Como sou uma pessoa séria chegaram ao pé de mim e disseram-me:

– Eh pá, ganda bronca, meu, nem sabes o que aconteceu. Arderam os registos todos. Nada tem dono. Dá aí uma volta pelo país e distribui as coisas de forma que aches razoável. Não te preocupes que o helicóptero paga a gente.

Começo a sobrevoar o país e dou com as fábricas do Grupo Amorim. Como leio a Forbes sei que aquilo vale 5.000 mil milhões e hesito. A quem é que eu vou dar isto? Se calhar fica para o Estado, aproveita-se o incêndio para fazer alguma justiça social.

Começo a pensar. Se ficar para o Estado quem é que vai gerir? Deve ficar para um ministério qualquer que há-de nomear uns gestores…

Subitamente a coisa fica menos atraente. O Grupo Amorim, que anda a crescer desde 1870 não deve durar uma década gerido pelos funcionários do Ministério.

Tenho então uma ideia que me parece genial. Conhecem aquela classificação de Monumento Nacional que se aplica aos castelos, Mosteiro dos Jerónimos, etc? Decidi que o Grupo Amorim passa a ser classificado de “Monumento Nacional Económico” (que de facto é) e aplico a mesma classificação a todos os grandes grupos económicos portugueses – Sonae, Jerónimo Martins, etc. Na prática, acabei de nacionalizar todos os grandes grupos, que passaram a estar sob a tutela do Estado.

Mas como não sou parvo e já sei que daqui a uma década estarão todos falidos, decidi criar a figura de “Curador de Monumento Nacional Económico”. E quem é que nomeio para Curador do Grupo Amorim – António Rios de Amorim, como é óbvio (ou acham que o Grupo Amorim ficava melhor gerido por José Sócrates, Francisco Louçã ou Passos Coelho?).

Já perceberam o golpe, não perceberam? A coisa é do Estado mas é gerida pelos indivíduos que a fizeram e têm total autonomia para continuar a gerir como entenderem e para nomearem o Curador seguinte. Para além disso, dentro de limites razoáveis, podem retirar as utilidades correntes do Grupo (as vivendas, os carros, as viagens, etc – no meio dos 5.000 milhões isso nem se nota).

Depois desta revolução completa que operei na economia portuguesa o que é que mudou para a família Amorim? Na realidade, quase nada. Continuam a gerir e a fazer crescer o mesmo negócio de sempre e continuam a viver bem. Tecnicamente deixaram de ser proprietários, mas o facto é que o detalhe da titularidade pouco mais é do que um detalhe. A questão de fundo é que tudo o que existe num país tem de ser gerido por alguém e dizer que o Américo Amorim tem uma fortuna de 5.000 milhões ou dizer que o Grupo Amorim pertence ao Estado e é gerido com total autonomia pela família Amorim é muito parecido.

Se prolongarmos este raciocínio chegamos rapidamente à conclusão de que uma das maiores fortunas que existiu na Europa no séc. XX foi a do Presidente da Roménia, Nicolae Ceaucescu. Se esquecermos a titularidade formal e contabilizarmos a capacidade de uso, Ceaucescu tinha acesso exclusivo à caça de ursos no país inteiro (uma coutada privada do tamanho de metade da Espanha em que só ele podia caçar), acesso ilimitado a todos os monumentos nacionais, palácios, castelos, etc, dos quais podia dispôr e utilizar sem limitações (aliás mandou arrasar vários) e uma utilização pessoal, também basicamente ilimitada dos fundos do Estado.

O facto de formalmente não ser dono de nada é, na prática, irrelevante. Era dono de nada mas tinha o uso de tudo.

Onde pretendo chegar é à constatação de que a titularidade formal é, em parte, ilusória. Quando discutimos a distribuição da riqueza de um país, o que realmente importa é se quem a gere é a pessoa mais indicada e se a forma como é gerida é a mais conveniente.

Visto desta forma, coisas que parecem ilógicas passam a fazer sentido. Citando a Wikipedia:

“Em 24 de Agosto de 2011, Amorim, tendo sido questionado pelo Jornal de Negócios acerca da disponibilidade para o pagamento de um imposto extraordinário sobre as grandes fortunas, declara não considerar-se rico. “Não me considero rico. Sou trabalhador”, afirmou o empresário”.

Ele não se considera rico porque não lhe passa pela cabeça espatifar o património da família. Américo Amorim provavelmente encara-se a si próprio como simples administrador de algo que vem detrás e que ele gere e transmite para a pessoa seguinte.

Encarado desta forma, a questão passa a ser: “querem retirar mais dinheiro do Grupo Amorim e dá-lo ao Estado? Mas porquê? Acham que vai ser utilizado de forma mais útil?

E realmente é uma pergunta muito pertinente…

Vamos voltar ao helicóptero mas num cenário que não tem nada que ver com os incêndios das Conservatórias.

Como o país está mergulhado numa grande crise económica encarregam-me a mim (que nasci no planeta Marte, percebo à brava de economia mas não conheço nada sobre Portugal) de analisar a situação e propôr soluções.

Dado que as coisas vistas de cima têm outra objectividade, decidi analisar a situação começando por uma viagem de helicóptero.

Começo a sobrevoar o território e vejo um edifício fechado, com ar abandonado:

– O que é aquilo ali? Pergunto ao piloto.

– Era uma escola mas não conseguiram mantê-la aberta por não haver alunos suficientes. A aldeia é muito pequena.

– Compreendo. Como se chama o dono?

– Estado. Respondeu o piloto.

Tomei nota.

– E aquele edifício ali? Parece estar parcialmente fechado.

– É um hospital. A parte da maternidade teve de ser fechada.

– Compreendo. Como se chama o dono?

– Estado. Respondeu o piloto.

Tomei nota.

Lá em baixo uma estrada enorme atravessava os campos e perdia-se no infinito. Uma obra impressionante. Estranhamente, estava quase vazia.

– E aquilo, o que é?

– Uma SCUT. Era para ser gratuita mas concluiram que não tinham dinheiro para a sustentar e tiveram de pôr portagens. Como o pessoal anda sem guito agora está quase vazia.

– Compreendo. Como se chama o dono?

– Estado. Respondeu o piloto.

Ah, já sei, é o da escola e da maternidade?

– Esse mesmo.

Deve ser um daqueles meninos família que espatifam o dinheiro do papá, pensei cá para os meus botões.

Lá em baixo vejo uma enorme fábrica a fervilhar de actividade.

– E aquilo, o que é? Também é do Estado?

– Do Estado? Não. Riu-se o meu interlocutor.

– Aquilo é do Amorim. Está sempre a crescer. Vendem cortiça. Dá rios de dinheiro.

Tomei nota.

Quando estávamos a aterrar comecei a pensar no meu relatório com propostas de solução para sair da crise. Acho que vou começar pela imposição dum Imposto Extraordinário. Deverá incidir sobre o … como era mesmo o nome dele? O menino família, o das coisas fechadas. Ah, já me lembro – Estado.

Um Imposto sobre o Estado. Vou também propôr que os fundos recolhidos por esse Imposto sejam entregues ao outro, como era mesmo o nome dele?

Ah, já sei, Amorim.

Isto de ver as coisas de cima é bom. Dá objectividade.

.

Se gostou deste artigo, sugiro que leia

Sobre a Democracia, a Inclusão e a Economia

.

Se estiver farto de política, pode ler

O Príncipe e a Singularidade – Um Conto Circular

.

P. Barrento 2012

http://www.facebook.com/pedro.barrento

.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s