Sobre a Esquerda e a Direita

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Sobre a Esquerda e a Direita

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Toda a gente sabe, de forma mais ou menos instintiva, o que é a esquerda e a direita, em termos políticos. No entanto, quando se pede às pessoas para explicarem o que é, obtém-se as respostas mais díspares, por vezes mais estranhas e praticamente sempre muito afectadas pelas convicções políticas do interlocutor em causa. Face a essa diversidade decidi que também tenho direito à minha definição pessoal. Não é rigorosa, não é imparcial, é puramente negativa e é seguramente preconceituosa. Para além disso, é geográfica e temporalmente limitada (é portugalocêntrica e aplica-se principalmente aos últimos 80 anos) mas tem uma grande vantagem – É MINHA…!

De esquerda é quem não percebe que o tamanho do bolo não é fixo, de direita é quem não percebe que por detrás dos mapas e dos rácios há pessoas.

Vamos explicar, que a coisa é densa.

Suponhamos que a riqueza nacional é um bolo. Desse bolo, fatias muito generosas são regularmente entregues ao Srs. Nabeiro, Amorim, Soares dos Santos e similares e umas migalhas insignificantes são entregues aos arrumadores de carros que povoam os grandes centros urbanos. No meio há fatias de todos os tamanhos entregues a cada português (e a alguns estrangeiros) com critérios e justificações que vão desde “recebo mais porque mereço”, “marquei 35 golos nesta temporada”, “os meus pais trabalharam muito para me deixar este património”, “se não tens nada é porque és calão”, “sou um desgraçado sem sorte na vida” e por aí adiante.

Para um verdadeiro esquerdista e esquecendo algumas nuances para não complicar, a coisa é simples: mão firme, olho imparcial e com as melhores intenções dão-se fatias iguais a cada um. Finalmente, há justiça social!

Tudo maravilha, se não fosse um pequeno detalhe – o tamanho do bolo está sempre a mudar.

Se pensarmos bem, nas rarissimas situações em que o tamanho do bolo é fixo, todos somos de esquerda.

Três náufragos num bote que estimam ter de remar 10 dias para chegar a terra e que têm 6 kg de comida no bote, facilmente concordam que cada um tem direito a 200 gramas por dia.

Mas essa situação não é normal. No mundo real, o tamanho do bolo está permanentemente a mudar e é raro a esquerda decidir cortar fatias iguais sem ter o desgosto de descobrir que na repartição seguinte o bolo encolheu (por vezes, muito) e que a partir de certo grau até os supostamente beneficiados estão a comer menos do que comiam antes.

Quando, orgulhosos, declaram: “As fatias do bolo são finalmente rigorosamente iguais” o bolo costuma estar minúsculo e a esquerda costuma perder as eleições.

Não é impossível tornar as fatias mais iguais mas o equilíbrio entre o tamanho das fatias e o crescimento ou diminuição do bolo é uma fina arte, raramente dominada.

Na direita, a coisa passa-se normalmente ao nível duns gabinetes, umas reuniões e uns mapas. Indivíduos com muitos cursos em universidades prestigiadas olham para os mapas e concluem que o país está numa situação grave. São usualmente pessoas trabalhadoras e esforçadas. Passam meses (por vezes anos) a tomar medidas tecnicamente correctas e contabilisticamente sólidas para corrigir os problemas detectados. Há que equilibrar a balança de pagamentos, reduzir os déficites, subir a produtividade, provisionar despesas futuras, corrigir os desiquilíbrios disto e daquilo. São milhares de dados, mapas e rácios. Por vezes, depois de muito trabalho até conseguem começar a “pôr a coisa nos eixos”.

Quando, orgulhosos, apresentam os resultados conseguidos, costumam perder as eleições…

Este tipo de pessoas gosta pouco de andar na rua, falar com o povo, pegar em bébés ao colo. Afinal, há problemas tão grandes para resolver, para quê perder tempo, o trabalho acumula-se nos gabinetes.

E quando finalmente conseguem equilibrar os rácios todos, descobrem que as pessoas se estão nas tintas e que as coisas que realmente interessavam aos eleitores não foram feitas.

Quando penso nisto, ocorre-me um paralelismo com a situação dos comerciais e dos administrativos, nas empresas.

Os comerciais só estão interessados em vender. Não querem saber se há material para entrega, se aquele cliente já pregou calotes, se o produto que venderam é um artigo único que implicará stock de peças e formação de técnicos para um caso isolado – tudo isso é irrelevante. Uma venda é uma venda e é SEMPRE motivo de orgulho. As empresas geridas exclusivamente por comerciais abrem sempre falência, por vezes apesar de um grande sucesso nas vendas. Tipicamente, abrem falência pelos calotes acumulados, mas também pelo total caos administrativo e organizacional.

As empresas geridas exclusivamente por administrativos têm sempre tudo muito certinho mas nem sequer costumam conseguir chegar a ser verdadeiras empresas. Normalmente concluem que tiveram azar e que não havia mercado para o negócio deles.

As empresas de sucesso são predominantemente comerciais mas com uma administração que impede os vendedores de fazer grandes asneiras e que dá aos administrativos poder suficiente para manterem a coisa organizada mas não tanto que estrangulem o sistema. É um equilíbrio delicado e quando obtido, é arte e não ciência.

Portugal comporta-se como uma empresa que é entregue alternada (e exclusivamente), ora aos comerciais ora aos administrativos.

O baile começou na 1ª República, com os seus sucessos nas áreas da educação, direitos civis, laborais e outros, conseguidos à custa duma tal catástrofe nas contas públicas que até um amanuense da terceira divisão como o Salazar conseguiu fazer figura de génio nos 15 anos seguintes.

No final do Salazarismo temos o resultado típico dum regime de contabilistas. Um país com uma moeda estável, toneladas de ouro no Banco de Portugal (feitos notáveis para uma economia tão pequena e frágil), contas públicas equilibradas e uma população analfabeta, atrasada, sem estradas, com cobertura embriónica de rede eléctrica, água e saneamento e presidentes de Câmara que achavam que tinham feito obra quando mandavam construir um fontanário.

A dança dos comerciais e dos contabilistas recomeçou após o 25 de Abril. Todas as grandes transformações sociais foram efectuadas pela esquerda, a qual, em contrapartida, já levou o país à falência por três vezes desde 1974. Nos três casos, foram os contabilistas (portugueses ou externos) quem teve de resolver a situação.

Resumindo, é sempre a esquerda quem provoca as evoluções sociais (o que não quer dizer que toda a esquerda o faça) e é sempre a direita quem tem de reorganizar o caos subsequente, o que não quer dizer que toda a direita o faça. Santana Lopes, por exemplo, no seu curto reinado de menos de um ano, conseguiu chacinar as contas públicas do país com uma “eficiência” que causaria inveja a qualquer marxista.

Visto desta forma, o problema de Portugal é que não há uma administração que controle e equilibre os comerciais e os administrativos. Ambos estão a responder directamente aos accionistas (os eleitores), que não percebem nada de empresas, têm naturalmente simpatia pelos vendedores e só chamam os administrativos quando se assustam.

É um problema de estrutura. Há que criar um poder entre o governo e os eleitores. Talvez uma alteração profunda dos poderes e função do Presidente da República (que, na sua configuração actual, ninguém percebe para que serve). Talvez seja isso, talvez seja outra coisa – mas o problema está nessa área.

Alguém mais inteligente do que eu deveria dedicar-se a este assunto.

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Se gostou deste artigo, sugiro que leia:

O Capítulo Perdido de “O Príncipe”, de Maquiavel

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Se estiver farto de política, pode ler

O Príncipe e a Singularidade – Um Conto Circular

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P. Barrento 2012

http://www.facebook.com/pedro.barrento

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4 responses to “Sobre a Esquerda e a Direita

  1. Meu caro : este texto merece uma boa divulgação.Raramente a última página do Público que eu leio todos os dias, tem tanta substância.
    Parabéns e espero ver mais crónicas!

    Abraço

  2. Brilhante meu caro Pedro! O problema não é dos cargos mas das pessoas que, através do seu talento de “comerciais” – do voto claro – os ocupam. O honorável estatuto de Presidente da Republica até soa a digno e regulador. Porem quando temos o pouco discernimento de o confiarmos a um Senhor muito alto, muito direito, muito penteado e muito, muito cinzento, a coisa fica triste. Sou convictamente de direita, mas gostava mais de ver o Senhor de cabelo ruivo, desinibido, bem humorado, natural, aficionado aos touros, Português sem vergonha de o ser. E fico-me por aqui porque dos outros nem é bom falar.

  3. Escreve com piada e realismo,o que se traduz numa leitura “light” como convem nesta altura do ano..Afinal tudo não passa da perspetiva por onde se veem as coisas…

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