Análise Da Crise Actual

Análise Da Crise Actual

Na décade de 80 aconteceram 3 eventos cujos efeitos a longo prazo os tornam directamente relacionados com a crise actual:

a) Margaret Thatcher ganhou as eleições em Inglaterra (em 1979) e manteve-se no poder até 1990:

b) Ronald Reagan subiu ao poder e governou os E.U.A. de 1981 a 89

c) em 1989 cai o muro de Berlim e o Bloco de Leste desmorona-se.

Os dois primeiros eventos levaram ao poder economistas que acreditavam em dois princípios antes não implementados: concessão de crédito fácil e desregulação dos mercados financeiros.

O terceiro evento fez com que o capitalismo deixasse de ter um inimigo (o comunismo) e necessitasse de estar permanentemente a justificar-se em termos morais. Sem inimigo militar (no exterior) e eleitoral (os partidos marxistas ocidentais, alguns com hipóteses reais de ganhar eleições, como o Partido Comunista Italiano) o capitalismo estava finalmente livre para fazer experiências antes impossíveis ou demasiado arriscadas.

Tanto Thatcher  como Reagan alteraram substancialmente a estrutura económica dos respectivos países, com efeitos a longo prazo. Se no caso de Thatcher o catastrófico estado da semi socialista economia britânica pós Segunda Guerra Mundial justificava experiências radicais, no caso dos Estados Unidos, a governação Reagan traduziu-se simplesmente na destruição do tecido industrial e na transformação dos E.U.A. de país tradicionalmente “credor” para país “devedor” sem que houvesse nenhum grande problema anterior que justificasse as transformações efectuadas.

As alterações provocadas por estes dois líderes foram repetidas, em medidas variáveis nos diversos países europeus, pelos líderes respectivos, pelo que, de forma mais ou menos intensa, acabaram por afectar, no mínimo, a maior parte da Europa e E.U.A.

A abertura maciça do crédito ao público consumidor provocou um boom de curto prazo nas economias e um grave problema de longo prazo nas mesmas. Para além disso, na minha opinião, causou uma clivagem na oposição de esquerda de que esta nunca mais recuperou até hoje.

Confrontada com um público eleitor a quem a súbita abertura das portas do crédito tinha feito disparar o consumo, uma parte da esquerda (o “New Labour” Britânico de Tony Blair, o P.S. português de José Sócrates, etc) perceberam que a antiga esquerda austera com um discurso politico baseado em sindicatos, ideologia e confrontação de classes dificilmente voltaria a ganhar o voto de eleitores fascinados com o novo acesso que tinham a comprar a prestações todos os bens que anteriormente lhes estavam negados.

Em resultado disso, uma parte da esquerda foi simplesmente absorvida pelo sistema, mantendo as mesmas politicas quando finalmente conseguiu regressar ao poder (P.S., Labour, etc), enquanto que a esquerda restante (PCP e BE, no caso português) se viu remetida para um guetto, num caso repetindo  estratégias e slogans criados há 100 anos atrás para lutar contra um capitalismo industrial pouco relevante hoje em dia, no outro refugiando-se em causas “do momento” (gay rights, etc) proveitosas para conseguir assento parlamentar mas incapazes de levar um partido a ser maioriário.

Em qualquer dos casos, a esquerda deixou de ter um projecto económico alternativo. Num caso porque tem o mesmo projecto económico da direita, no outro porque não tem coragem de defender o antigo projecto económico do Bloco de Leste (que foi testado e faliu nalguns 50 países), limitando-se a ser contra as politicas correntes sem que se perceba muito bem que sistema económico implementaria na hipótese remota de alguma vez ganhar eleições.

Neste cenário de total ausência de um inimigo relevante e que obrigue a contenção e “decoro”, o capitalismo ocidental evoluiu para um sistema oligárquico caracterizado por:

1) emissão privada da quase totalidade da moeda em circulação (através da concessão de crédito), com várias consequências nefastas, nomeadamente;

a) a impossibilidade de deixar falir as entidades que emitem a moeda (os bancos), mesmo quando estes ficam insolventes;

b) a obrigatoriedade de ter crescimento económico permanente, pela necessidade de pagar o juro decorrente da emissão privada de moeda;

2) a aceitação, sem reacção estatal, de actividades puramente financeiras que em nada contribuem para o processo de criação de riqueza e que, inversamente destroem e desviam a riqueza criada pelos sectores realmente produtivos;

3) a facilidade de crédito tornou enorme o risco de que os gestores das empresas saissem das mesmas para criar empresas próprias concorrentes (risco anteriormente reduzido pela dificuldade em reunir capital), pelo que os salários e o poder dos gestores dispararam, tornando estes nos verdadeiros “donos” das empresas. Como contrariamente aos accionistas, os gestores são motivados pelo curto prazo e não pelo longo prazo, as empresas (principalmente financeiras) aumentaram desproporcionadamente as politicas especulativas de curto prazo, com grandes hipóteses de lucros rápidos (que beneficiam os gestores) e enormes riscos (pouco relevantes para os gestores mas graves para os accionistas e para a economia em geral).

4) A aceleração provocada pelo crédito fácil tornou ainda mais imparável o processo de descalabro ecológico planetário, já anteriormente insustentável e que provavelmente já ultrapassou a hipótese de ser revertido. O efeito económico mais imediato (para além de várias outras facetas) da degradação ecológica é tornar cada vez mais cara a extracção de utilidades humanas do ambiente, tornando os pobres mais pobres (embora não necessariamente os ricos mais ricos).

5) Inversão do aumento da rotatividade social e igualdade de oportunidades que tinham estado em evolução positiva durante quase 100 anos e que subitamente começaram a regredir. Enquanto anteriormente o capitalismo justificava a desigualdade social com a igualdade de oportunidades e exemplos infindáveis de actividades económicas rentáveis desenvolvidas por pessoas de origens não privilegiadas, o sistema tornou-se subitamente mais oligárquico, mais fechado e menos rotativo.

Em resumo:

1) O capitalismo, ao deixar de ter um inimigo que o obrigava a ter uma dimensão moral, degenerou rapidamente num sistema desequilibrado, insustentável e oligárquico que, por um lado, exige maior economia de mercado nas áreas que afectam a população (legislação laboral, subcontratação privada de serviços sociais, etc) e “nacionalização” dos prejuízos quando os negócios das entidades financeiras correm mal;

2) A única oposição que existe funciona com argumentos, estratégias e ideologias velhas de mais de um século e sem qualquer proposta de sistema económico alternativo. Basta vasculhar os sites do PCP e do BE para encontrar montes de criticas a medidas concretas do governo e fórmulas vagas de politicas alternativas mas nenhuma descrição coerente de um sistema económico alternativo e diferente do actual. Aliás, que eu saiba, nenhum dos dois partidos diz sequer, de forma inequivoca, que quer sair da UE e do euro. Se não saiem, não podem ter uma politica económica alternativa;

3) Esta conjugação de um sistema em colapso em que não existe uma proposta de sistema alternativo novo é incomum, em termos históricos (embora não necessariamente única) e limitadora da evolução da situação. Enquanto não houver uma proposta de sistema alternativo, o actual não cai, por mais podre que esteja.

P. Barrento 2012

http://www.facebook.com/pedro.barrento

One response to “Análise Da Crise Actual

  1. Bom artigo. O auto esquece-se da ideia de criação de uma moeda única, enquanto existe tanta disparidade de políticas e estratégias dentro da zona euro. No caso de Portugal, ganhamos claramente um poder de compra fictício. Ficamos com uma moeda muito mais forte que não podemos desvalorizar, e em troca recebemos dinheiro que não usamos como devíamos, o que seria, criar condições para que o nosso tecido económico se transformasse. O que aconteceu então foi que, a economia do país nunca deixou de se basear na produção barata e desqualificada, quando não temos escala para competir com a China e outros, e, pelo efeito do euro, deixamos de ser os mais baratos.

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